Viver e morrer no Cabo Sardão
fechado Publicado por António Martins Neves 3 Janeiro 2009 em Portugal, Sem categoria.Menos de duas horas depois de ver o colega pescador baixar à cova, já Manuel Ceríaco se esgueira com o balde enfiado na cana, falésia a baixo, como um gato. Tem 38 anos, pesca desde os “sete ou oito” e também já caiu uma vez no mar revolto da Costa Alentejana depois de ter fracturado uma perna nas rochas. Salvou-se. Os bombeiros conseguiram resgatá-lo de barco.
Mais susto, menos susto, o alentejano franzino, da vizinha freguesia da Boavista, também no concelho de Odemira, não encontra razões para arrumar a cana. “Já me morreu aqui um primo”, confessa, olhando lá para baixo, uma altura duns bons seis andares ou mais, onde mesmo numa tarde calma de Inverno as ondas “metem respeito” quando se desfazem contra as rochas e atiram espuma pelos ares.
A sorte de Ceríaco não bafejou outros “viciados” da pesca na bonita costa que se avista à direita e à esquerda do Cabo Sardão, como o que foi a enterrar terça-feira. O comandante dos Bombeiros de Odemira, Nazário Viana, 50 anos, tem de cor as tragédias daquela que será uma das faixas mais selvagens do litoral português. Só desde que dirige a corporação de socorro do maior concelho do país recorda-se de pelo menos 16 pescadores mortos entre a Praia do Malhão e a Zambujeira do Mar, mais de 50 quilómetros de rochedos escarpados.
Levanta o braço lentamente e começa a apontar para locais que o olhar forasteiro não distingue e a cada movimento sai um número: quatro, mais três, mais dois, mais um… “Fora os que conseguimos tirar de lá vivos”. O próprio comandante, que nas últimas semanas foi figura habitual nos telejornais quando a deficiente assistência médica em Odemira se tornou notícia, também já teve o seu baptismo de mar, quando apanhava perceves e uma onda o empurrou contra um penedo e de seguida para uma cama de hospital. Como muitas outras famílias do concelho, a sua ficou igualmente enlutada pela “cegueira” dos sargos e robalos. Caiu-lhe um primo ao mar. “Quando cheguei aqui ainda o vi e ouvi gritar mas já não fomos a tempo”, recorda no local da tragédia.
Manuel Ceríaco também sabe de cor as histórias dos que morreram, mas isso não o faz perder um minuto nem abrandar o ritmo da descida. Escassos minutos depois de resumir o seu currículo, sem ponta de vaidade, realce-se, já está junto à água a atirar bocados de sardinha para atrair os sargos e esperar que algum ferre o anzol que desaparece na espuma e dança ao sabor das ondas. Um olho na isca e outro nas ondas, porque de quando em vez há uma maior que não perdoa quem apanha pela frente. Vê-se cá do alto e tenta-se perceber porque será. A vida por um sargo? Não. “Isto é como andar na estrada”. Pode-se morrer a todo o momento e ninguém deixa de viajar por causa disso, alega.Está consciente do perigo que corre? “Penso muito nisso, mas a gente não sabe quando é que morre”, respondera antes de enveredar falésia a abaixo. E já teve muitas horas para reflectir. “Pesco aí desde os sete ou oito anos. “Isto é como a caça”, “a pesca faz parte da minha vida” e “não se pode esmorecer”. E lá foi.
Cá no alto, outro par de olhos vai seguindo os gestos de Ceríaco. É um mineiro de 29 anos para quem a vida tem outro valor e prefere a segurança do topo das falésias para pescar. Quando não trabalha nas Minas de Neves-Corvo, António Madeira percorre frequentemente os 90 quilómetros entre Almodôvar, onde mora, e o Cabo Sardão no seu pequeno jipe. Às vezes vai lançar a linha para os lados de Portimão. Muito o distingue de Ceríaco. Começou a pescar há apenas três anos – “o meu primo pegou-me o vício” – e acha que a pesca é um belo passatempo. Nem que seja para atirar robalos de volta à água quando têm menos dos 36 centímetros obrigatórios. “Hoje já foram três”. “Não gosto muito de me andar a aventurar”, contara antes do almoço, enquanto deitava a mão à cana e olhava um robalo enorme que vagueava lá em baixo, o lombo escuro em contraste com o fundo arenoso. Faz mais uma iscada com caranguejo e zummmmm, lá vai ela. “Vou ver se o acho”, ironiza com indisfarçável sotaque alentejano. Na roda dos presentes todos apostam que o animal tem mais de cinco quilos. O belo troféu continua a divagar e António Madeira pousa a cana e espera. Retoma o assunto de sempre de cada vez que chega gente. Aventuras não é com ele. “Aqui em baixo morreu um já depois do Verão. Era de Aljustrel”, diz, apontando com o olhar.
O vício é grande mas a “cegueira” muito menor que a de Manuel Ceríaco, sempre a lutar contra a gravidade e as “pancadas” de mar. Até leva a família (mãe) e o cão, que sofreu no corpo as agruras quando um dia se colou às pernas do dono, “armado em gato”, e escorregou pela ravina a baixo”.”Não partiu nada”, vangloria-se a dona, Otília Maia, 68 anos, enquanto vai repartindo o piquenique com o animal.Deixaria depois escapar que a coisa afinal tinha sido mais grave do que parecera. Pouco tempo depois morreu lá, no mesmo buraco, o “pescador de Aljustrel”.
Um seguro abraço.
António Martins Neves


