Inveja de quê?

Caro amigo

Estou a escrever-te acabadinho de chegar à Praia, coisa que, confesso, estava mortinho por fazer. Porque o frio de Portugal, por estes dias, convida mesmo é a, quem possa, fugir dele a sete pés. Está explicado, e espero que perdoado, o meu tão longo silêncio.
Não é que a chuva me tenha criado musgo no teclado do computador, não é que o frio me tenha entaramelado os dedos. Mas sabes como é… o Natal, a família, depois a passagem de ano, compras, uma jantarada aqui e ali, um cafezito, uma reunião, mais um almoço, mais ir de corrida fazer não sei quê… e atrasam-se as novas.
Mas não tenho, como deves imaginar, também grandes coisas para te contar, às duas e meia da manhã. A Praia parece-me igual, pelo trajecto de táxi entre o aeroporto e a minha casa, e esta aqui me esperou como se não a tivesse deixado com gente todos estes dias, coisa a que a Arlinda não deverá ser alheia.
O tempo, não preciso dizer-te, está como de costume, o mesmo é dizer quentinho. Gosto do Inverno mas uma semana sem praticamente ver o sol, como a passada, deixa-me desgostoso. E depois com o anúncio da vaga de frio que por aí está a chegar o regresso “a casa” caiu-me como sopa no mel.
E assim aqui estou, de t-shirt, descalço, com algum calor, satisfeito por me ter conseguido fintar à gripe durante as duas semanas que passei em Portugal, com mais de 30 mil desgraçados por dia nos hospitais, de pingo no nariz, febre, tosse e essas coisas “boas” todas.
Não penses tu que estou para aqui a tentar de uma forma disfarçada fazer-te inveja, tu que quando me estiveres a ler deves de estar com uns belos cinco ou seis graus (ih ih ih… desculpa… não resisti). Mas tenho de confessar-te que foi com alívio que aqui cheguei, porque frio é bom desde que não morda.
E cheguei com uma temperatura de 21 graus, um rapaz a carregar-me a mala até ao táxi e a cravar-me uns euros.
Dois euros? Nem penses.
Pronto… um.
Dei-lhe mesmo dois, os que me tinham sobrado, e ele fez-me logo ali uma festa, que assim já tinha almoço amanhã. Disse-me o nome (sou péssimo em nomes, já me esqueci) e garantiu que andava sempre por ali, que “estamos juntos”.
E o taxista à minha volta, se me importava de dar boleia a mais duas pessoas, que também vinham para o mesmo lado. Um casal, imigrantes em França. Na despedida a mesma coisa dos nomes, que nos víamos por aí. Acredito que sim.
Disto sim podes tu ter inveja. Porque este modo de ser não temos em Portugal. Se calhar é mais ele do que o calor a deixar-me satisfeito por ter chegado.

Um confortável abraço

Fernando Peixeiro