Taberneiro Fernando,

as fotos têm a crueza do preto e branco. Nas tabernas é a alma que sobressai. É um mundo fechado. Cheio de prazeres e contradições. Os rostos, os objectos, entram-nos pela vista. Eram o centro do mundo mesmo sem largo. Entrava quem queria, ficava quem podia. Um filtro de homens. As mulheres só atrás do balcão. Poucas, mas rainhas. Chamavam-lhes donas. Senhoras num mundo de homens.
Andava aqui à volta com livros nas estantes e dei de caras com uma obra singular com dez anos. Uma espécie de breviário das tabernas. Sem cor. Uma obra prima do fotógrafo José Manuel Rodrigues. Clientes, copos de vinho, taberneiros, vida, petiscos. Um mundo extinto. Resta a memória dos balcões de madeira, das mesas com tampo de mármore, dos cotovelos apoiados. Tinha que haver sempre petisco. Beber sem comer é deixar-se levar pela “bebida”. Marmelo, um pero, passarinhos fritos, rábano. O que houver. O melhor petisco, dizem os sobreviventes, é mesmo a conversa. O resto é desculpa. Os sabores são requintados e suculentos. Personalizados. No Alentejo a comida tem uma alma própria. Embala as ideias, a política do povo, os passos que a sociedade dá lá fora. Conheci tabernas que eram abertas pelas mulheres às seis da manhã e encerradas pelos maridos às onze da noite. Elas serviam café com leite e bolos de torresmos e iam deitar-se cedo. Eles tomavam conta a meio do dia e vendiam o vinho do final da tarde. Nas bandejas circulares de alumínio. Os copos pequenos e apertados a rodarem por baixo da torneira das pipas. Depois levavam um banho ligeiro de água simples e voltavam a ser abastecidos e despejados nas bocas. As histórias, os desabafos, uma ou outra cantiga ao despique, antes de ir para casa. Descansar o corpo e despertar para outra jornada.

Um breve abraço.

António Martins Neves


1 Response to “Breviário da taberna”

  1. 1 primo ze

    Bons tempos esses, os das tabernas, entre copos de branco de conqueiros e fatias de queijo fresco curtado fininho para dar para todos , do começo da apredizagem no Ti Pagarim e já Homens de barba no Viso, em todas elas uma lembrança , a conversa, essa conversa que fazia das tabernas sitios unicos , que saudades dessas conversas meu caro Primo Neves,

    À nossa

    Primo Zé