Votar sem convicção – Lisboa à deriva
fechado Publicado por António Martins Neves 13 Julho 2007 em Portugal.
Eleitor Fernando,
escrevo-te na última noite da campanha eleitoral para a as eleições intercalares que se realizam domingo em Lisboa. Quero que saibas o que te espera nesta cidade e não sejam outros a dizer-te mais tarde. Vão ser umas meias-eleições, porque quem vencer só vai estar no poder, se se aguentar, meio mandato – dois anos. Tudo porque o anterior executivo caiu. Não será de excluir que esta ida às urnas fique também pela metade dos eleitores participantes. Em pleno início de férias, não excluo que as pessoas troquem a ida às urnas por qualquer passeio ou ida a banhos. Depois criticam, dizem cobras e lagartos de quem é eleito, mas esquecem-se que quando os chamaram…faltaram ao dever.
O que sobra parecem ser os candidatos. Um dúzia, Fernando, correram a posicionar-se numa altura em que se dizia, sem desmentidos, que a autarquia da capital estava falida e o então presidente, Carmo Rodrigues, a muito custo, lá deixou a cadeira depois de muita insitência e muito rumor e acusaão de corrupção no seu elenco. O PS puxou de um às do seu baralho – o “número dois” do Governo – António Costa, a quem todas as sondagens dão como vencedor. Já o PSD avançou com uma “segunda linha”, o antigo juiz, actual deputado e ex-ministro da Solidariedade sem cartão do partido, Fernando Negrão. Nada de anormal se não fosse o facto de a antiga aposta dos sociais-democratas, Carmona Rodrigues, depois de decidir que sim e que não um rol de vezes, acabou para dar o passo decisivo para o lugar que as circunstâncias haviam obrigado a abandonar.
As coisas começaram a aquecer quando algumas sondagens indicaram que Negrão poderá ficar atrás de Carmona. O segundo maior partido derrotado por um independente na capital vai deixar mossa no seu líder e Marques Mendes vai ter uma noite de domingo difícil se tiver falhado a sua aposta, como falhou na anterior, quando de resultados se trata.
Dos restantes candidatos, surge Helena Roseta, a arquitecta que veio da direita para agora se desvincular do PS, onde militava, e se apresentar, por conta própria. As sondagens criaram aqui outro grande ponto de interrogação: umas dão-lhe mais de 12 por cento, mas noutras pouco ultrapassa os quatro. Uma incógnita para a qual contribui seguramente – como sucede com os outros concorrentes, incluindo o “indomável” independente Sá Fernandes, o “denunciador” da alegada corrupção na autarquia, que volta a correr pelo Bloco de Esquerda, – a falta de ideias fortes que resolvam problemas como a degradação do património habitacional ou o caos do estacionamento. Ninguém deu um passo que se visse nesse sentido. Todos prometeram, incluindo o comunista Ruben de Carvalho, ter soluções para resolver todos os problemas, mas…depois dirão em concreto como o conseguem, se forem eleitos. Nomeadamente uma dívida monstruosa. Falta dizer-te que o CDS, segundo os estudos de opinião, corre o risco de não eleger o seu cabeça de lista, Telmo Correia, que já perdeu o partido num congresso e agora arrisca-se a outro fracasso, a quem o líder dos democratas-cristãos, o regressado Paulo Portas, não poderá ficar alheio. Uma espécie de advertência como aquela de não voltes ao local onde já foste feliz.
E Lisboa também não vai ganhar felicidade com esta corrida a 12. A confusão e o vazio de ideias que caracterizou a campanha vai prolongar-se depois das urnas. É assim, Fernando, a capital do teu país, membro de pleno direito do conjunto formado pelas maiores e mais desenvolvidas democracias do mundo. Soa-te bem? Eu gosto de ler isto, mas não corresponde nada à verdade. É só mesmo fachada…Resta-nos mesmo aguardar por um outro dia, por outra era, que, espero, sinceramente, ocorra ainda em nosso tempo, para nos voltarmos a orgulhar da nossa terra. Haja esperança, amigo.
Um abraço optimista.
António Martins Neves

