Versão dolorosa do Tratado
fechado Publicado por António Martins Neves 14 Dezembro 2007 em Portugal.Saudável Fernando,
Brrrrr, brrrrrr, brrrrr. Não, não estou a tremer por causa das agruras porque passou o Infante D. Henrique aí em Cabo Verde. É mesmo gripe, que chegou sem se fazer anunciar no dia em que foi assinado o Tratado de Lisboa. Irá também ficar para a história, esta malvada.
Televisões em directo. Uma cerimónia solene, tudo pensando e executado ao pormenor, um cenário deslumbrante, o azul (bonito) a predominar, pessoas de fatos de bom corte a chegar em grandes carrões…e que vejo eu? Tudo em tons de negro, Fernando! A televisão parecia ter recuado mais de 30 anos e voltado a ser a preto e branco. Embrulhado num manta, no sofá, foi assim que vi a cerimónia do célebre Tratado, que dizem os seus autores, vai pôr a Europa de novo no caminho. Consigo pensar e escrever isso quando até quase os cabelos me doem.
Ainda consegui vislumbrar uma ponta de graciosidade naquele eléctrico que levou chefes de Estado e de Governo do Mosteiro dos Jerónimos, onde rubricaram aqueles livros grossíssimos, até ao Museu dos Coches, para se banquetearem com um belo almoço. E eu no sofá, tomado pelo fastio…
Mas quando olhava para o transporte articulado, azul (ou seria cinzento), sabes o que sentia? Que ele me estava a passar com as rodas todas por cima, esmagando osso por osso, lentamente. Com um começo assim, de cada vez que ouvir falar no Tratado de Lisboa vou ficar pelo menos amargurado e irei recordar horas dolorosas. Do mal o menos, que seja só eu a senti-lo…
Um dorido abraço.
António Martins Neves

