Calçado Fernando,
nunca duvidei que a tua arma fosse mais uma caneta do que qualquer revólver ou pistola clandestinos, e muito menos que te pudesse aguçar a pontaria qualquer canhangulo que tivesse andado disfarçado no meio de roupa usada para chegar onde não deve. Isso tudo não impede um comum e pacífico mortal de, muitas vezes, lhe apetecer dar um tiro. Mesmo de pólvora seca, para o ar, para não chamuscar ninguém, mas apenas para assustar quem necessita de assentar os pés na terra. Hoje, por exemplo, apetecia-me fazer um desses disparos junto dos organizadores do Festival Rock in Rio, que decorre em Lisboa este fim-de-semana e no próximo. Para os advertir que com papas e bolos só se enganam os tolos.
Este figurado comichão no dedo cresceu-me quando sexta-feira à noite testemunhei que o anunciado funcionamento do Metropolitano para além do horário normal para levar de regresso a casa os espectadores da festa não foi um embuste, mas andou lá perto. Os comboios circularam, mas só pararam nas estações terminais da linha. Pelo menos foi o que aconteceu na Linha Verde, onde os passageiros só podiam sair, num dos sentidos, na estação do Campo Grande, porque as intermédias estavam fechadas. Conclusão: às duas da manhã centenas de pessoas viam-se despejadas no terminal rodoviário junto àquela estação onde os transportes existentes eram…táxis. Que não davam mãos a medir, tamanha a fila que observei, embora não tenha sido espectador do festival.
Tudo isto poderia não passar de uma daquelas falhas reveladoras da incompetência e do deixa andar comummente recebidas com um encolher de ombros, que obrigou os espectadores a ter que desembolsar mais uns euros no táxi para regressar a casa porque o metro passou à porta mas não parou. Nada disso. A organização do Rock in Rio anuncia-se como uma estrutura profissional e eu não duvido do empenho. E até tiveram a atitude louvável de dar um cariz ambiental – tão em voga – e tentar reduzir ao menos os efeitos poluidores da concentração, onde na noite a que me refiro estiveram mais de 90 mil pessoas. Assinalável. E para as emissões de poluentes que não conseguiram evitar até anunciaram a plantação de árvores, que irão um dia consumir o dióxido de carbono correspondente ao lançado para a atmosfera com a festa. O que me levanta sérias dúvidas é que tenham contabilizado as toneladas de gases emitidos pelo corrupio dos táxis que corriam pela cidade a transportar espectadores que tinham programado ir e voltar de metro eviram os planos furados e encarecidos. Foi o metro que recusou abrir todas as estações para não pagar horas extraordinárias aos funcionários? Foram os promotores do festival que assim acordaram com a transportadora e omitiram o facto a quem se dispôs a pagar os cerca de 50 euros por algumas horas de espectáculo? Um deles ou os dois erraram. Esqueceram-se que o marketing deve ter a correspondência dos actos que anuncia. Caso contrário origina algo a que chama habitualmente fraude. Efectiva, se implicar perda de dinheiro, ou sentida, desde que se fique pela sensação de engano junto das “vítimas”. Não basta só parecer, é preciso ser também. Parece que prometer está mesmo a tornar-se nesta terra sinónimo de incumprimento.
Antes de terminar este escrito, não quero deixar de te dar conta do acontecimento político do fim-de-semana: a eleição de Manuela Ferreira Leite para presidente do PSD, maior partido da oposição. A ex-ministra ganhou a votação e um presente envenenado. Venceu com 37 por cento dos votos dos militantes que foram às urnas, apenas mais cerca de cinco por cento que o segundo classificado, Pedro Passos Coelho, e pouco mais de sete por cento do que o terceiro, Pedro Santana Lopes. Contas redondas, cada um obteve a preferência de um terço dos militantes sociais-democratas. Primeira consequência: nenhum dos Pedros vai sair de cena e o partido com maior número de deputados no Parlamento depois da maioria absoluta socialista fica balcanizado. Lopes, o ex-primeiro ministro que já perdera no país e agora perdeu no partido, veio logo anunciar serenamente que não parará o “combate”, que é o mesmo que dizer “Vou continuar a sonhar que um belo dia serei eleito primeiro-ministro”. Manuela, que se viu agora com o menino nos braços e com a tarefa de enfrentar o primeiro-ministro José Sócrates nas eleições do próximo ano, terá que correr por sua conta e risco. O tempo dirá, mas algo me diz que os “atletas” Coelho e Lopes não vão ajudar a líder da equipa nesta corrida. E como eles juntos representam 60 por cento dos votos, Ferreira Leite dificilmente conseguirá num ano a boa forma para vencer sózinha o desafio de se sentar no pódio de líder do próximo Governo.
Um preocupado abraço.
António Martins Neves

