Vaticano deixa “cair” Maddie
3 comentários Publicado por António Martins Neves 10 Setembro 2007 em Portugal.
Céptico Fernando,
tu às voltas com as contradições da tão desejada chuva que depois emporca os mares das ilhas pela falta de civismo e limpeza das pessoas e eu, como o país, por aqui ainda às voltas com o caso de Maddie, a pequena inglesa que se sumiu no Algarve há 130 dias. Já te falei várias vezes deste mistério, já te disse que, lamentando o mais que consiga, ela não deve estar viva, mas agora venho falar-te de uma atitude recente que o Vaticano teve em relação ao caso.
Embora arredado nos últimos dias do contacto directo com o trabalho das redacções, ouvi algo numa televisão que me deixou com a pulga aqui, atrás da orelha, como costumas dizer. A Santa Sé, onde os pais de Madeleine McCann conseguiram ser recebidos pelo Papa – que como sabes fala com muito poucos, raríssimos dos que desejam estar com ele, retirou a semana passada qualquer referência ao caso da sua página na Internet. Fui ver e não está lá nada. Mas esteve. Associada àquela campanha internacional sustentada na explicação de que a miúda fora raptada e que iria ser encontrada se um grande movimento internacional se criasse. E o Vaticano, e o Papa, por quem não morro de amores, como já tive oportunidade de te o dizer na nossa correspondência, deixou “cair o caso”. Ops, disse. Ops, dirás tu. Que se terá passado? Aqui, que se saiba, muito pouco, além dos pais terem sido constituídos arguidos, o que faz recair sobre eles algumas suspeições que poderão vir a ter ou não fundamento. O certo é que o casal de médicos, que havia alugado casa no Algarve para ficar enquanto tudo não se resolvesse, depois dos últimos interrogatórios realizados pelos inspectores da Polícia Judiciária, decidiu, anunciando-o escassas horas antes, voltar para Ingalterra com o argumento de que precisa dar estabilidade aos outros dois filhos bebés…Explicação fraca! Tudo coincidências? Não acredito! E o Vaticano? Porque deixou de considerar o assunto importante sem avançar qualquer explicação? Saberão eles, lá em Roma, algo que nós ainda não sabemos aqui? Realçavam os especialistas abundantemente requisitados pelas nossas televisões por estes dias que o Vaticano existe há dois mil anos e veio constituindo desde00 então uns serviços secretos que, garantem os especialistas, são dos melhores do Mundo. Ora cá está, Fernando! Associando esta facilidade em saber o que é importante para a potente hierarquia católica ao facto dos pais terem escusado, ao que foi publicado na Imprensa, responder a várias perguntas dos polícias e agora terem ido para “casa”, já nem a imprensa inglesa fala de rapto. Os próprios especialistas ingleses encontraram resíduos do cadáver de Maddie na roupa da mãe e ela não soube explicar à polícia porquê, ainda pelo que foi noticiado.
E em “casa” estão “protegidos” pela imprensa inglesa, que sempre quis fazer crer que estávamos perante um caso de rapto (falta de segurança em Portugal…) que uma polícia incompetente (a nossa) não conseguia resolver. Agora dizem que a incapacidade de explicar o que se passou leva a Polícia a “investir” no álibi de que os pais sabem o que aconteceu à filha. Para esconder o “fracasso” da investigação, dizem eles. Que nunca acharam estranho uns pais deixarem três bebés sózinhos em casa para ir jantar fora… Agora vem o Vaticano e…esquece o caso. Apesar da mãe, ao que tem sido relatado, ter a chave da igreja da Praia da Luz e ter sido vista frequentemente a entrar no edifício, algo de bastante anormal, segundo os conhecedores do meio eclesiástico. O próprio padre teria levado um puxão de orelhas do bispo de Faro por lhe ter dado a chave. Perante isto, lá pelos lados de Roma, pelo menos, parece haver já quem saiba o que se passou e não terá sido mesmo rapto. É um gesto de desagrado abrir o elo que levava a liderança católica a associar-se a uma campanha quase mundial para encontrar uma menina de quatro anos. Algo de muito grave aconteceu por ali, na Praia da Luz, e não rapto. Também já corre por aqui que quem disse ter visto a miúda em Marrocos e em Espanha afinal foi uma amiga dos pais…Não tenho confirmação. Mas o Vaticano, com 2.000 anos de “governação estável” e sempre de olhos esbugalhados para o Mundo e quase sempre em bicos-de-pés, lá saberá. E nós vamos ficar à espera que ele ou alguém nos conte o que se passou. Se fosse à Polícia, convidava o padre Praia da Luz para uma conversa…
Um avisado abraço.
António Martins Neves



“Agora dizem que a incapacidade de explicar o que se passou leva a Polícia a “investir” no álibi de que os pais sabem o que aconteceu à filha.”
Ó António… e se sabem mesmo?! É quase tão trágico como não saberem de nada!
Mas, admita-se que sabem. Mera suposição. E, partindo desta suposição, porque gente de mundo, com mundo, longe dos afadigados costumes latinos, pensam desta forma, partindo do pressuposto que de um acidente se tratou: Foi um acidente, somos médicos, nada foi possível fazer pela nossa filha. Viveremos pela vida fora com esta pedra às costas, qual Sísifo dos tempos modernos, mas não podemos espatifar as nossas vidas nem comprometer a dos outros filhos.
Ora, criar todo um enredo, maquiavélico, é certo, mas que eu, por exemplo, comprenderia, com custo, mas fá-lo-ia, de forma a que, ao emaranhar poderes como os do Vaticano(PAPA DIECTAMENTE), o govermos de Brown(Gordon), toda a imprensa inglesa, etc etc etc… de forma a que, para estes tais poderes, fosse mais útil manter a tese do rapto, contribuíndo para essa mesma tese de rapto, de forma a não sair beliscado de toda esta trapalhada, hipotecando a credibilidade, honorabilidade… levando a que o “Mundo”, esse tal mundo estrategicamente implicado na tese de rapto, seja conduzido a usar a sua influência para impedir a verdade. Parece demasiado próximo e rápido desde o momento do alerta do desaparecimento até que esse tal esquema começou a ser desenrolado. Mas… isso é para quem não está habituado a criar esse tipo de artimanhas… veja-se a lista de assessores e a sua proveniência)origem), pergunte-se quem são os amigos dos Mc Cann, o que está em causa, quem está em causa, logo no início e agora… Pois!
Eu, todavia, continuo a pensar que é excessivo pensar-se que os pais pudessem ter criado ou aceite que este esquema surgisse.
Enfim. Seja como for, que não sai bem desta porra toda são os jornalistas, portugueses e ingleses, as coisas que se dizem, que foram ditas, como foram, todos eles, receptáculos para verdades estretégicas, mentiras tácticas… alguém, um dia, vai ter que tesear esta gaita toda…
Mas, apesar de tudo ser demasiado estapafurdio, alguém ganhou com isto… e esse alguém foram as crianças de todo o mundo… que, se o processo for bem encaminhado, podem ser melhor defendidas de tanto filho da puta que para ai anda…
abraços
rb
Meu bom caro António
continuo a ler com muito interesse esta correspondência atlântica. Agora, como imaginas li ainda com renovada vontade, este post… E julgo que te devo dizer que não é grande coisa aquilo que os McCann conseguiram, quando dizes que “A Santa Sé, onde os pais de Madeleine McCann conseguiram ser recebidos pelo Papa – que como sabes fala com muito poucos, raríssimos dos que desejam estar com ele”.
Eles conseguiram aquilo que muitos conseguem, todas as quartas-feiras, que é participar na audiência geral (onde participam 20 mil pessoas), e não numa audiência privada como erradamente a generalidade da comunicação social disse na altura. Nesta audiência, qualquer um pode participar… E para estar na linha da frente, basta ir muito cedinho, de madrugada, dada a dimensão da multidão que vai às audiências… No caso dos McCann, eles tiveram uma benesse, de facto, mas a de alguém os pôr na linha da frente, e dar um toque ao Papa a dizer que eles eram os pais “da” menina desaparecida… (Incontornável, naqueles dias de exacerbado mediatismo, como te recordas.)
Depois, a questão do site do Vaticano também é do reino do anedotário do Correio da Manhã… [E não é por ser da concorrência.
]
A Maddie nunca esteve no site oficial da Santa Sé, muito menos como “especial” ou “campanha” ou “encontrem a Maddie”… Quanto muito terá havido alguma referência num discurso qualquer de um cardeal, mas nunca a um caso concreto, como este. A diplomacia vaticana, e o Papa na altura, referiram-se ao drama de crianças em risco, mas nunca Bento XVI se lhe referiu em concreto. E apenas o cardeal Saraiva falou, então, a pedido de jornais portugueses, dizendo que rezava pela menina mas também criticando o comportamento dos pais, que deixaram a menina sozinha.
Mais do que isto é balelas do CM, que todos seguiram acriticamente, sem uma confirmação para o Vaticano. Da sala de imprensa, quando o meu irmão, pelo Público, os questionou na sexta-feira riram-se.
Um abraço do leitor amigo,
Miguel
Camarada Miguel Marujo,
parece-me estar aqui em causa um problema sério de credibilidade da imprensa portuguesa, ou pelo menos de alguns jornais. Não sou o primeiro a dizê-lo e é fácil constatar essa realidade. As notícais do caso Maddie, na maioria das vezes, são feitas sem referência a fontes: uma violação de uma das regras básicas do jornalismo, como sabes. Os acontecimentos chegam ao conhecimento dos jornalistas de duas formas: ou porque os testemunham ou porque alguém lhes conta, sendo esta a esmagadora maioria das fontes das notícias que lemos, ouvimos ou vemos. Está no código deontológico e qualquer estagiário sabe disso. Mas nem os directores parecem já lembrar-se disso, porque deixam que se façam notícias carregadas de factos e onde não se explica se foram observados por quem os escreve ou relatados com testemunhas, que devem ser identificadas, por regra. Para já não falar das opiniões/interpretações anónimas – outra falha grave e habitual nos dias que correm.
Esta conversa, para quem lê jornais, pode parecer quase pré-histórica, mas jornalismo não é alguém que domine a língua sentar-se num computador r aviar uma prosa: tem regras, porque não se destina a um bilhete para o amigo mas para informar a opinião pública, que tem, dizem as tais regras, que estar segura do que aquilo de toma conhecimento é verdade. E é um sustentáculo do regime, garante a Constituição da República.
Precece que as dúvidas são enormes sobre a matéria. Basta ler o que é publicado em quase toda a imprensa.
Quanto à questão do Vaticano, permite-me discordar: se um estado é acusado de algo que não fez pelo jornal mais vendido num dos países onde, supostamente, é seguido pela maioria da população, tem que o desmentir. Verdade que isto acontece nos países democráticos e o Vaticano está fora do grupo. Mas rirem-se e não dizerem que é mentira – vais desculpar-me Miguel – não é a mesma coisa.
Um cordial abraço do amigo
António Martins Neves