Vale, o goleador

Estupefacto Fernando,
na véspera do pontapé de saída do Europeu de Futebol entrou em campo outro “jogador” de méritos firmados, neste caso pelos conhecidos dribles à justiça. É esse mesmo em que estás a pensar: João Vale e Azevedo, ex-presidente do Benfica, célebre por coleccionar processos judiciais por burla e por já ter cumprido vários anos de cadeia. Imagina que agora voltou a dar que falar porque acha, do alto da sua sapiência jurídica, que já cumpriu mais tempo de cadeia do que aquele a que foi condenado, “esquecendo-se” que tem uma pena efectiva de mais sete anos e tal por cumprir, e outros cinco prometidos. Ah, e anuncia que está em Londres.
Estava o país suspenso do resultado da estreia da selecção portuguesa de futebol no Euro, hoje, frente à Turquia, quando surge pelo flanco um ponta-de-lança conhecido pelos desafios à justiça e por nunca se conformar com as derrotas que colecciona na barra dos tribunais. A culpa é sempre do árbitro, tal como dizem os maus perdedores do futebol a sério.
Para homem de leis, Vale ameaça não deixar de nos surpreender pela insistência com que despreza a justiça. Se o comum dos mortais tem que as cumprir, sendo ele advogado essa obrigação é redobrada. E qual foi a última jogada apresentada? Afirmar, pela boca de um advogado inglês, que já esteve mais tempo na cadeia do que o “requerido” para cumprir as sentenças a que foi condenado. Esquecendo que esgotou há dias todos os recursos de uma condenação que o manda para a cadeia mais sete anos. Já cumpriu três de uma condenação de seis e foi também condenado a mais cinco, da quais, obviamente, recorreu.
E sabes porque está em liberdade? Porque o tribunal permitiu que saísse em liberdade se pagasse uma caução de 400 mil euros. O homem apresentou uma garantia bancária de uma empresa francesa que se comprometia suportar aquela quantia se Azevedo violasse as regras a que tinha ficado sujeito pelo tribunal. Em mais uma jogada singular, surge a suspeita de que a tal garantia é falsa e que a seguradora galesa não estaria habilitada a assegurar a verba anunciada porque os seus cativos financeiros conhecidos rondavam apenas os 250 mil euros. O pendor atacante prosseguiu com outro remate fortíssimo às malhas da justiça: em liberdade devido a uma caução que, de acordo com várias interpretações jurídicas, nunca garantiu, Vale violou o Termo de Identidade e Residência decretado pelo tribunal, que o obrigava a permanecer no país. A GNR foi há dias lá a casa para o deter - cumprindo a decisão do tribunal de o mandar para a cadeia mais sete anos - e encontrou…o caseiro. Vale fez depois saber que está em Inglaterra, que as autoridades portuguesas sempre souberam disso e tal e tal. Oram se estava impedido de sair de Portugal, como é que a Justiça podia permitir a ida para o estrangeiro, se tinha sentenciado a obrigação de ficar por cá? Isto é o que chama querer vencer sem olhar a meios. Além de ter violado uma data de regras a que ficara submetido, agora ainda vem acusar a Justiça de saber que ele cometeu uma falta grave e não a ter assinalado. Para corolário, e como quem marca um golo depois do apito final, Azevedo decide que não tem que cumprir mais penas de prisão, porque já esteve lá dentro o tempo suficiente. Para um advogado, não podia ser mais original. Que grande jogador, Fernando! A marcar golos assim, de todos os modos, todos os ângulos e até à mão, ainda sujeita o Cristiano Ronaldo a alguma humilhação.

Um desportivo abraço.

António Martins Neves


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