Caro amigo

Pois em Cabo Verde não me parece que exista muito esse problema de solidão. Primeiro porque as ilhas obrigam as pessoas a ficarem mais juntinhas. Depois, olha, conheço uma pessoa que tem 56 irmãos. Não quer dizer nada, é certo, mas são frequentes irmandades assim. Há alguns meses conheci um homem, de 78 anos, que tem 30 filhos e nove dedos. É certo que os filhos não se fazem com os dedos, mas se eu te disser que ele é dos melhores tocadores de viola das ilhas?
Lela Violão lançou em Fevereiro passado o seu último trabalho, um CD com 12 temas tradicionais cabo-verdianos, no qual canta em crioulo mas também em francês e inglês, feito em parceria com o violinista de origem checa Martin Schaefer.
Manuel Tomás da Cruz, Lela, dá gosto ouvir, mesmo quando só conta a sua vida. “Tenho sorte, não fumo e não bebo e ainda tenho voz”, disse-me numa breve conversa, ao fim da tarde, no intervalo dos ensaios para um espectáculo que deu com Martin na capital cabo-verdiana.
Lela tem a particularidade de tocar viola sem poder usar o dedo médio da mão esquerda (que é fundamental), depois de o ter perdido numa operação malfeita após um acidente em S. Tomé e Príncipe, quando aí trabalhou na Roça Água-Izé.
Nasceu na Ilha de S. Vicente e começou a tocar viola aos 8 anos, de ouvido, às escondidas do pai, e aos 14, ainda sem que o pai soubesse, já tocava em bailes e festas.
Trabalhou três anos em S. Tomé, foi porta-minas (ajudante de topógrafo) e acabou como encarregado de construção de estradas em Santiago. Durante todo esse tempo nunca deixou o seu grande amor, a música, mas só mesmo quando se reformou é que pôde dedicar-se a ela a tempo inteiro. Antes andou, nos tempos livres, por bares e festas, por serenatas e espectáculos. Com o grupo, já extinto, Simentera conheceu a Europa e ainda hoje recorda, com saudade, o último espectáculo em Portugal, mais precisamente em Sines, uma vila que disse ter adorado, ou não ficasse ao pé do mar.
Agora é um homem de recordações mas também de orgulhos e de projectos. Orgulha-se de ter criado três dezenas de filhos: “Trabalhei para eles todos, fiquei sem nada, nem uma casa para morrer eu tenho”, disse-me, só lamentando que já não tenha tempo para criar o mais pequeno, agora com cinco anos.
Mas não é de fatalismos que fala este homem, não penses. Se não repara: “Tenciono fazer pelo menos mais um disco antes de morrer”. Porque tem na cabeça “pelo menos 96 sambas brasileiros, 200 mornas e 150 coladeiras” (música tradicional cabo-verdiana).
“Desde criança aprendi música, cresci entre seis meninas, fui o último a nascer. Elas ouviam música e eu ouvia e decorava, até hoje. Hoje só há uma diferença, é que me esqueci de alguns dos autores”, justifica Lela Violão.
Bem disposto, divertido, simpático, brincalhão, antes de voltar para os ensaios este homem anda me disse assim: “fiz 78 anos a 18 de Janeiro mas ainda sou capaz de divertir com os meus dedos e a minha voz”.
Nove dedos sem preconceitos, 30 filhos com orgulho, 96 sambas, 200 mornas e 150 coladeiras. Um homem assim não pode sentir-se só pois não?

Um abraço, já a caminho da Praia