Uma vingança feia por causa de uma mulher bonita
fechado Publicado por António Martins Neves 11 Março 2007 em Portugal.Caro Fernando,
Ainda a propósito do alemão que se atirou das falésias de Sagres depois de seis anos a batalhar para abrir o seu restaurante, ocorreu-me uma outra história, mirabolante, mas, ao que me garantiram várias testemunhas, verdadeira. Ouvi-a há alguns anos, também naquela região do Algarve, igualmente com um empresário estrangeiro, só que francês. Uma bela noite estava o homem na pequena pensão que geria quando lhe tocaram ao portão do quintal. Foi ver e estarreceu: um GNR era a “visita” e mais um ou dois estavam um pouco atrás, de metralhadora apontada.- Aquele carro é seu? – perguntou-lhe o primeiro guarda, indicando com a mão uma viatura velha estacionada do outro da rua que levava à praia.
- É… – respondeu, suspeitando que, pelo tom ainda mais austero que o habitual num agente de autoridade português, borrasca das grandes vinha a caminho.- Importa-se de nos acompanhar? A cena foi-me descrita pelo próprio gaulês, criado na pátria da liberdade e dos direitos humanos, que contava o episódio-pesadelo aludindo a um ar marcial dos paisanos, comum nos países ditatoriais, onde uma farda é a lei e cada cidadão uma criatura cheia de deveres e escassos direitos, que perde à mínima voz de qualquer magala.
Avançaram em direcção ao carro, o polícia ajoelhou-se e começou a descolar uma fita que segurava algo que a escuridão não deixava ver. -Isto é seu?, interrogou-se com uma barra de haxixe na mão. Foi o princípio de um longo calvário. O carro era dele, sim senhor, a droga que não e que qualquer pessoa a poderia ter colado ali. Mas convencer os guardas disso?? Detenção imediata e ala, a caminho da Judiciária de Portimão.
Conheceu vários dias de prisão, até que o seu advogado consegui convencer um juiz do ridículo que era tentar provar em tribunal que uma barra de haxixe colada na embaladeira de um carro estacionado na rua era do dono dessa viatura. Ainda se fosse no interior…Muitos meses depois, noites sem dormir, dinheiro e mais dinheiro em despesas judiciais e advogado e uma vontade enorme de vender tudo e voltar para França, o homem lá se deixou ficar…
Agora o que dizia o povo à boca pequena, porque ter um inimigo na guarda não é coisa que se queira.O pequeno hoteleiro era casado com uma senhora de ascendência francesa, loira, bonita, elegante, simpática, daquele género que não passa despercebido, muito menos em qualquer vila e arredores do Portugal pequeno. E contava-se que o graduado da guarda na região tinha por hábito mandá-la parar sempre que seguisse na estrada e o momento minimamente propício.
Que daqui, que dali, enfim, ainda chegou a passar-lhe umas multas, por quase nada e a propósito de tudo. Assédio, dirás tu tu. Também me parece, e descarado. Das pessoas ouvia-se que não senhor, não eram questões de segurança rodoviária que o motivavam…. Como nunca conseguiu atingir o cume daquela montanha pelos próprios meios, teria recorrido aos auxiliares de que dispunha e ali estava o desfecho: um marido arruinado por ter uma mulher bonita por quem se pelava o comandante da guarda. Parece um filme, não é?
Abraços.
António Martins Neves

