Foto VisãoAtento Fernando,
a viagem que relataste do conhecido lutador e democrata Edmundo Pedro a esse campo de concentração chamado Tarrafal não pode ser, nunca, esquecida. Como o que lá sucedeu e porque aconteceu. Pena que não tenha ido na viagem uma mulher que veio agora mais uma vez a terreiro defender o Salazar, que construiu o Tarrafal em Cabo Verde, onde Edmundo Pedro conseguiu sobreviver dez anos donde parecia impossível sair vivo. Chama-se Maria José Nogueira Pinto e deu uma entrevista ao semanário Expresso onde defende o ditador com unhas e dentes.Conta com a mesma cara-de-pau que votou nele no famigerado concurso dos Grandes Portugueses, do mesmo modo que ajudou a eleger o actual presidente socialista da Câmara de Lisboa, António Costa.
Quanto a coerência, parece-me, e tu corrigirás se estiver errado, estamos ao nível zero. Mesmo sem trazer à baila o facto de defender um ditador, que recusava a democracia que lhe permite todas as cambalhotas e mais algumas sem qualquer penalização política.
Mas o que eu gostava mesmo era que tu contasses a história da ida dessa mulher aí ao Tarrafal, com Edmundo Pedro de cicerone, para ficarmos a saber como ela justificava que o seu apaniguado tratasse assim quem o contrariava. Que bela reportagem tu farias com a prisão em fundo e a “troca de opiniões” da salazarenta e do opositor ao ditador. Diz ela que o “botas” de Santa Comba Dão “sabia mandar” e que “preservou aquilo que havia a preservar”.
Deve-se estar a referir, entre muitas outras atrocidades, às centenas de homens que ele “soube” mandar para aí, para a morte, muitos deles. Depois preservou de facto uma guerra colonial que ainda hoje não cicatrizou e remeteu o país para a cauda da Europa donde nunca mais saiu – aí culpas divididas com os “democratas” que vieram a seguir. Que belo legado deixou António de Oliveira Salazar a Portugal, diz-nos essa mulher a que, nunca entendi porquê, muita imprensa chama “Zezinha”. Quando tratamos alguém pelo diminutivo manifestamos aproximação, simpatia, ternura. No que dependesse dela, Fernando, eu não te podia estar agora a escrever esta carta porque corria o risco de ser preso e torturado por criticar o ditador que dirigisse Portugal. E a imprensa, que deve lutar pela sua própria liberdade para sobreviver, passa um borrão no passado e toca de estender a passadeira vermelha à senhora com um “nome carinhoso”. Politicamente, a senhora sempre foi um desastre mesmo entre os seus pares. O patamar da fama atingiu-o quando afirmou que até o rato Mickey ganhava as eleições no CDS-PP – onde já esteve e saiu uma data de vezes – contra Paulo Portas, acabando a mulher por sofrer uma derrora agravadamente humilhante pela sua arrogância.  Sobre o “faro” político da senhora também estamos conversados.
Agora reavivou-se-lhe a memória e voltou aos ares de intolerância e discriminação em que começou a dar as primeiras passadas. Quer mandar os comerciantes chineses para um gueto a que, originalmente, se propõe chamar Chinatown. Assim, sem mais, está a alavancar-se  a outro cargo público de nomeação como comissária da Baixa-Chiado. Há uns tempos atrás, um jornalista nosso amigo, conhecedor dos meandros da política, dizia-me que a mulher tinha aquilo a que se chama “boa imprensa”. Como exemplo contou que ela tinha sido a única dirigente política a sentar à mesma mesa os directores dos principais órgãos de Comunicação Social do país para lhes falar dos seus planos, então sem falar de chineses e como vereadora do CDS na Câmara de Lisboa, para recuperar a Baixa-Chiado. No dia seguinte todos os senhores directores, ou quase, escreveram sobre o assunto páginas e páginas. Algo nunca visto, nem com presidentes da República.
Por estas horas andará o presidente da Câmara António Costa a remexer-se na cadeira, depois de ler a tal entrevista. Há votos perfeitamente dispensáveis, dirá ele para a gravata. Mas parece que a mulher o emparedou e em troca do apoio que aceitou, lá vai ter que lhe dar o cargozinho e mais uns milhões valentes para gerir.
Já desabafei Fernando, sobre esta figura pouco edificante da democracia – infelizmente não é caso único -, mas falta-me mesmo é ler a tua história da ida dela ao Tarrafal. Pode ser que alguém tenha a ideia de a desafiar, ela convide o Edmundo Pedro para explicar o “bom” da prisão e tu faças a reportagem da tua vida. Pena que a “Salazarinha”, como lhe chamou um colunista do Público, não tenha o mínimo de coragem necessário.

Um memorável abraço.

António Martins Neves


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