portoViajado Fernando,
fui ao Porto! À Invicta, isso mesmo. E nada de trabalho: foi mesmo passeio e contemplação puros. Num domingo encalorado, o Sol estava escaldante, como se pairasse ali logo por cima da Rotunda da Boavista.

Era olhar em volta e ver as pessoas a entrar no Metro de calções, chinelos e toalha ao ombro. Ignorante na geografia local, arrisco que iriam para a Foz ou para os areais de Matosinhos. Mas eu optei mesmo pela urbe quase deserta.
Há 12 anos que estou encarregue de formar um homem e achei que estava na altura de ele conhecer uma terra cujos mistérios eu não domino. Ficámos os dois pela rama, mas outras incursões não são de excluir e o aprofundamento necessário há-de acontecer um dia. Deixa-me garantir-te, Fernando, que o Porto está uma cidade diferente da que conheci há mais de dez anos atrás. Para melhor. Em determinada altura, quando tinha disponibilidade profissional e acreditavam que eu tinha algum jeito para entusiasmar jovens estudantes que  queriam ser jornalistas, a segunda maior cidade do país era mais cinzenta. Embora mantenha as cores acastanhadas a que nós aqui pelo Sul não estamos habituados, mas que vincam a diferença e a diversidade que tanto nos enriquecem (e a mim muito me orgulham) quando viajamos no nosso país. Limpa, descontraída, suave no sentir, desejosa pela postura das pessoas. Não me vou alongar com os retratos da Ribeira, esplenderosa, apesar da plantação de antenas parabólicas, nem com os jovens que se atiram ao Douro da Ponte D. Luís. Os barcos, rio abaixo, rio acima, muito menos com as pataniscas de polvo que me caíram do prato, a estrear. Prefiro antes contar-te que estar na principal sala da Casa da Música, apenas a observar, remete a imaginação, com um estalar de dedos, para grandiosos espectáculos. A imensidão e a modernidade estão ali acasaladas de uma forma bem sugestiva. Tem alma aquele espaço. Gosto de edifícios arrojados, daqueles que nos trocam as voltas e nos surpreendem a cada ângulo. Ali quase não se respira por tanto arrojo. Bonita e desconcertante, garanto-te eu que é a Casa da Música. E por aqui me fico, que de arquitectura sei tanto como um sapateiro de pescar sardinhas.
O resto teria que ser a Fundação de Serralves, obviamente. Mas aqui confesso-te que esperava mais aprumo, menos seguranças e mais profissionalismo numa visita que acabou atribulada. Verdade que as vacas da quinta estão bem tratadas, simpáticas até, proporcionando aquele som surdo e delicioso de quem saboreia palha desenchabida a dente queixal, o cavalo agradece as festas na testa, mas… há ali um abandono naqueles 18 hectares de verde que sobrevivem no meio da cidade que não me deixaram nada descansados. Pois, as exposições, os quadros, as esculturas, os traços de Siza Vieira…Só que aquele mundo de campo bem que podia estar mais cuidado. E quando se vai a uma instituição que quer ser emblemática, espera-se e exige-se mais aprumo, afirmação.
E quero que acredites, porque é a pura da verdade, que já tinha pensado nisto tudo quando me aconteceu um acidente impensável. Fomos matar a sede que resistia à água da torneira da casa de banho na quinta quando caí da cadeira. Assim mesmo, como o Salazar que nos amesquinhou neste jeito em que sobrevivemos de nariz de fora. Um rapaz corpulento e com cara de poucos amigos anuiu à possibilidade de nos servir na esplanada, escolhemos as únicas duas cadeiras que garantiam sombra e ainda não se tinham cumprido 30 segundos e já eu sentia o mundo a desabar-me debaixo do traseiro. A cadeira esparrameirou-se por completo debaixo dos meus magros 78 quilos, e eu, sem rasgo de pára-quedista, fiz como o pintor que quando sente o escadote a resvalar se agarra com força ao pincel. Acabei com uma mão entatalada e pressionada pelo meu próprio peso. Não entrei em pânico, apesar de só ter ouvido gargalhas à minha volta e ver o meu filho a ficar branco como a pintura da parede. Eu, que costumo agradecer com muito convicção a quem ajuda desinteressadamente, acabei a erguer-me, pelos meus próprios meios. Houve depois um folhetim menos agradável e não recomendo a ninguém que arrisque cair das cadeiras da Fundação de Serralves. Temi ter um dedo partido pelo que senti. Felizmente, não aconteceu. Deixo-te o recado: se fores a Serralves, vê bem onde te sentas.

Um tripeiro abraço.

António Martins Neves


4 Responses to “Uma queda em Serralves”

  1. 1 dulce

    Querido António:

    A-do-ro o que escreve. Fica-me sempre a pergunta: porque insisto eu em pensar que posso publicar, quando o António que escreve assim, se remete ao seu discreto blog e não se atreve a arriscar. Agora já tenho treino de “apresentadora” de livros e ofereço-me para o cargo.

    Lamento a queda da cadeira e juro-lhe que se e quando for a Serralves, ficarei garbosamente em pé: será uma homenagem a si e ao seu pobre dedo entalado!

    Fim de semana feliz!

  2. 2 Clara

    António

    É impossível não esboçar um sorriso enquanto leio a sua crónica.
    Escreve como poucos o fazem. E sensibiliza-me, também, como poucos.
    Se possui hoje em dia a capacidade de entusiasmar aspirantes a jornalistas realmente não sei. Asseguro-lhe apenas que possui a capacidade rara de entusiasmar a todos os que se deparam com o que escreve. Não pare nunca. E atreva-se a voos maiores porque as suas asas merecem abraçar o céu.

    Clara

  3. 3 Rita

    Também gostei.Estás à espera de quê?

    Desculpa a comparação, mas a Margarida Rebelo Pinto “escreve”;a Carolina Salgado “escreve”; o Herman José “escreve” e até a Maya!

    E tu que ESCREVES não partilhas,editando porquê?

    Rita

  4. 4 Ana Martins

    A pergunta está feita, António…
    Porque não escreves, tu que tens uma mão fantástica?
    Atreve-te, querido amigo!
    Um abraço


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