Falta de apetite

Descansado Fernando,

ficou-me aquele matraquear para a vida. Depois de um dia exaustivo de viagem e das malas arrumadas, o mundo virava e eu podia ver outra página. Logo ao acordar. Os cascos  dos burros, das mulas, um cavalo ou outro, que desfilavam ali à frente do quintal, rente ao muro de pedra. Ainda o sol não se tinha erguido e já a vida desfilava ali nos meus ouvidos. Era só vestir-me a correr e observar as pessoas a rumarem lentamente à procura da vida, que veria depois em cima daquelas lombadas no regresso, quando o calor já apertava.
É isso mesmo que estás a pensar: os meus acordares naquelas férias de que te falei eram assim mesmo. Pelo caminho que passava junto à casa desfilava uma aldeia que era um autêntico universo para mim. Camponeses com bestas de carga a caminho do rio, o Guadiana. De lá vinha quase tudo o que as bocas da aldeia comiam. As minhas tias, embora ausentes quase todo o ano, conseguiam como que adivinhar quem lá ia pelo ruído dos cascos nas pedras. Um macho, uma mula ou uma égua bem ferrados distinguiam-se a léguas de um burro que dispensava ferraduras nas patas e tinha um andar bem mais discreto.
Eles passavam mas eu não me ficava. Queria ir também, Puxava-me aquele pulsar. Tinha era que esperar e suster a ansiedade até chegar Simão. Um caldeirão de zinco pendurado numa corda, lá vinha ele. Cumprimentava os recém chegados e, invariavelmente, a segunda frase que dizia  era “então quando vão?” Era feitio, como se diz agora. Eu não queria saber de etiquetas e ficava de olhos esbugalhados, a fazer-me convidado para uma jornada. Alguém da minha família tratava lá de falar e assumir os meus desejos e muitas vezes lá se cumpria o destino. Íamos para rio, cada um na sua burra. Caminhos estreitos, só para aquelas patas habilitadas que sempre chegavam ao destino. Na volta lá se regressava em cima da carga. Milho, alguma hortaliça e o mais que estivesse maduro na estreita margem onde o grande rio do Sul permitia quase tudo. Uma vez terminou mal a viagem de regresso. O dócil animal, que se pelava por festas e abraços, decidiu praxar-me e não parou à porta da arramada. O cavaleiro inexperiente que era (e sou) não esteve à altura e em vez de de me disfarçar no cachaço do animal acabei deitado para trás, a bater com os queixos na parede por cima da porta talhada para montadas pequenas. Como nem tudo é mau, a queda terminou num montão de estrume de burro, com muita palha à mistura. Uma queda fofa que seria o começo de uma grande pesadelo. Febres, delírios, uma tarde e uma noite das mais horríveis que vivi. Não perguntes porquê, não sei responder, mas foi assim  que aconteceu. E sem dramas, porque logo que me foi possível lá me encavalitava eu no muro para ficar à altura de conseguir saltar para cima da albarda e fazer caminho. Nunca mais caí. O resto foram só boas memórias, como naquele dia em que fomos ao moinho. Missão: transformar duas sacas de cevada em farinha para dar a um porco alegadamente enfastiado. Tenho ideia que fui em cima das sacas. Ida e volta foram aí uns cinco quilómetros e eu era o mais leve, o animal devia confundir-me com a carga. Estrada larga, caminho monótono, só estevas e estevas, erva fraca, quase deserto, alguma conversa para sentirmos que estávamos vivos. Às tantas lá se levantou ele no horizonte. Um moinho sem vela. Que raio! Então mas como funciona aquela máquina se o vento não tem onde soprar? Simples, descobri logo depois da chegada. Tinha um motor… e de charuto. Nunca tal havia ouvido. Funcionava a gasóleo mas precisava de um insólito pano a arder embebido em combustível para começar a funcionar, enquanto exigia braços com força para fazer rodar a manivela. Máquina estranha mas eficaz. Achei eu. O moleiro era Miguel B., homem vivido, bom conversador. O cliente e meu companheiro de jornada lá lhe foi contando ao que ia enquando os grãos de cevada eram transformados em pó branco pelas mós. “A porca não come, não sei o que lhe hei-de fazer”, confessou-lhe Simão. Confrontado com o facto inédito de um suíno com fastio, Miguel não conseguiu melhor do que recomendar uma ida ao dentista: “Ponha-lhe uns dentes novos”.

Um memorável abraço.

António Martins Neves


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