Uma noite só
Publicado por António Martins Neves 28 Março 2008 em Portugal.
Calejado Fernando,
sem me cruzar com personagens ímpares como esses que encontras aí pelo arquipélago, vou observando e vivendo a realidade menos interessante que perdura por aqui. E hoje venho contar-te uma história: a de um homem que ficou optimista por uma noite depois de ouvir os governantes dizerem que, depois de feitas as contas, o Instituto Nacional de Estatística concluíra que o Estado anda a diminuir o défice e a gastar menos, embora as receitas ainda sejam superiores às despesas em mais de dois por cento.
Mas como esses valores foram de 2,6 por cento no ano passado, e abaixo dos três por cento perspectivados pelo Governo, o ministro das Finanças andou a correr de telejornal em telejornal a “dar a boa nova” e a admitir que assim, no próximo ano, pode haver outra descida de impostos, como a que se vai efectivar apenas em Julho. Sim, porque essa redução no défice entre o que a máquina pública cobra e o que gasta levou os nossos governantes a decidirem baixar para 20 por cento o IVA que era até agora de 21 por cento.
Não acontecia nada assim há 30 anos, ouvia-se à laia de pregão, e o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, estava exuberante nas televisões, depois do próprio primeiro-ministro, José Sócrates, ter vindo dar a “boa nova” numa conferência de imprensa. O homem de que te falei ficou contagiado com aquele clima de optimismo, embora não se esquecendo que isto acontece em véspera de ano de eleições e ciente de que na sua vida pouco iria mudar. Mas a tanto optimismo é difícil resistir e quem não fica contagiado com uma história feliz?
Adormeceu quase com um sorrido nos lábios, este personagem personagem desta história. Ficara a pensar que se calhar seria desta que viriam por aí melhores ventos, que o país não estaria eternamente falido, que os empresários não iam pensar só no lucro, que os trabalhadores iriam aumentar a produtividade e que Portugal deixava de ser adiado como dizem os descendentes do “velho do Restelo”.
Pareceu um sonho e só durou uma noite. Quando na manhã seguinte ligou o rádio na estação pública Antena Um e ouviu uma reportagem em directo do Mercado da Ribeira, em Lisboa, caiu em si e viu que afinal o sonho não passara de um pesadelo disfarçado.
Uma peixeira disse em directo para o microfone que uma caixa de carapaus passou de 10 para 80 euros num ano, uma vendedora de fruta queixou-se que o marido gasta em dois ou três dias o gasóleo que antes lhe dava para abastecer a banca uma semana, a jornalista dizia que havia mais vendedores que clientes no mercado ao princípio da manhã e os comerciantes do pão reconheciam o disparo que o bem essencial que vendem sofreu nos últimos meses.
Estava destruído o castelo de cartas erguido pelo Governo na véspera. Bastou um singelo sopro e colocar os “protagonistas” a falar sobre a vida…
O IVA a descer um por cento? O tal homem passou a duvidar que qualquer comerciante vá a correr baixar os seus produtos um por cento. E foi o que leu. Lembrou-se que quando foi reduzido o IVA nos ginásios de 21 para cinco por cento para que incentivar o povo a fazer exercício físico, os donos daqueles espaços não reduziram os preços nos 16 por cento como seria normal. Teve que haver intervenção, como o Governo já ameaçou que iria fazer agora. Mas um por cento? Dez centimos na gasolina e 0,9 centimos no gasóleo a menos enquanto o petróleo não volta a subir? Isso é que cria ânimo e optimismo na população? Qual luz ao fundo túnel…Nada, a escuridão completa, sem sequer um indicador de direcção.
Desanimado, o nosso homem olhou para os jornais e ficou a saber que a descida no imposto vai deixar 250 milhões de euros por ano nas empresas e reduzirá em 1,4 milhões de euros a colecta fiscal diária do Estado. O resto, fica na mesma. Olhou para o cinto e ficou sem saber quando iria acabar o sufoco daquele maldito e último furo a que o obrigaram durante estes anos todos, com promessas de um dia voltar a poder respirar menos afogueado. E voltou a ficar de rosto carregado e ainda com menos esperança…
Um céptico abraço.
António Martins Neves



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