Repórter Fernando,

a tua última carta mostra, de forma, clara, que vives uma realidade bem distinta da que deixaste aqui em Lisboa. Conhecerás e terás percebido já que as duas situações são bem diferenciadas, na maioria dos patamares. Embora aqui também exista muita gente a sobreviver no que os outros atiram fora. Pouco vi dessa realidade, mais comum em África, mas que nos deve envergonhar a todos. Tentei conhecê-la das formas possíveis, porque não a podemos ignorar e é preciso sabê-la para agirmos e debelá-la. Uma delas é pelos livros. E de um deles retive um relato que quase todos os dias me ocorre.

Escrito pelo saudoso Ryszard Kapucinski, o jornalista polaco de quem já aqui te falei, e até no mesmo livro –“Ébano” – igualmente citado, o episódio ocorre em 1967, em Lagos, na Nigéria.Repórter a sério, Kapucinski opta por se instalar num bairro popular para conhecer a realidade das pessoas e do país, imperceptível a qualquer jornalista hospedado num hotel de cinco estrelas.Um bairro popular na Nigéria, naquela altura – e temo que agora não seja muito diferente – é um aglomerado onde sobrevivem como podem pessoas sem nada, ou quase. Que acordam de manhã sem a mais remota ideia se vão conseguir algo que se coma nesse dia. Onde se rouba tudo o que pode e tenha algum valor, principalmente comida.Entre os vizinhos da sua pequena rua, o polaco tinha uma velhinha. Vivia só e tudo o que lhe restava era uma panela. Não tinha mais nada, além, provavelmente, de alguns trapos com que taparia o corpo. A panela era o seu ganha pão. Comprava feijões a crédito aos vendedores de legumes, cozia-os, cobria-os de molho e aprontava uma sopa que vendia depois às tijelas. Muitos dos seus clientes tinham naquela malga de feijão o único alimento do dia.
Na rua, no bairro, era comum as pessoas não terem mais que um objecto, um utensílio, uma peça de roupa. Havia homens que tinham apenas uma camisa. O ar apresentável de tal peça de roupa permitia-lhes, por exemplo, ser guarda-costas de quem os quisesse contratar. Outros tinham uma picareta: podiam abrir buracos, se houvesse interessados. E havia ainda aqueles a quem só restava os músculos. Eram possíveis carregadores. Mas tudo por horas, na maior das precaridades, uma, duas horas. A vida vivida e sofrida um dia de cada vez. O futuro completamente banido do tempo.
Uma noite toda a rua acordou com um grito lancinante, relata Kapucinski. Era a velhinha no maior dos desesperos: tinham-lhe roubado a panela, tão só tudo o que lhe restava, o recipiente que lhe assegurava a mais precária das sobrevivências, que a mantinha viva. Não me perguntes porquê, mas quase diariamente me lembro desta “estória”. E acho que nunca me vou esquecer dela. Porque não posso. É demasiado forte para me abandonar e ajuda-me a manter desperto. Como tu, também me apeteceu escrever-te esta carta, num dia 25 de Abril,  e a contar o infortúnio da vizinha do nosso camarada jornalista, que a homenageou assim mas nem lhe deu um nome. Mas não tinha que o fazer. Se também te lembrares da mulher da panela de vez em quando, avisa-me.

Um só abraço.

António Martins Neves


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