Atempado Fernando,

quando te chegarem estas linhas terão passado 33 anos sobre a revolução que pôs fim à ditadura aqui em Portugal e abriu o caminho à democracia. Não é uma questão de atrasos pontuais, de desleixo com os compromissos, mas é uma forma de avaliar o desenvolvimento de um país, o modo como os seus cidadãos encaram as obrigações a que se sujeitam naturalmente. Mas aqui, como aí, também não nadamos em nenhum mar de rosas. Foi mais cravos, mas nas espingardas. Bons momentos, fracos desenvolvimentos, Fernando.
Andávamos nós de calções. Parece muito tempo, mudou muita coisa, mas no que define um país acho que estamos na mesma.
Os índices de corrupção continuam altos, a saúde é uma “doença” e a educação um “caos”. Se fosse pessimista, dizia-te já: não vamos lá! Como sou um optimista, continuo a acreditar que este país vai entrar nos eixos.
Proponho-te fazer as contas do deve e haver depois de sermos livres, nestes 33 anos: temos umas auto-estradas, a maioria pagas a peso de ouro, uma barragem megalómana em Alqueva, muitos prédios nos arrabaldes das vilas e cidades, continuamos a atirar o lixo para o chão e achamos sempre que a culpa é dos outros em tudo o que nos corre mal. Até quando chegamos atrasados.
E o que fizémos aos comboios de dinheiro que chegaram da União Europeia, perguntarás tu. Não faço ideia, ninguém os vê. Temos um sistema de saúde a cair de doentio, uma escola caduca frequentada só por obrigação, donde muitos alunos saem de lá logo que podem, pouca gente a saber fazer alguma coisa e, acho eu, a maioria a desenrascar-se! É isso, Fernando Peixeiro. Uma oportunidade ganha seria candidatarmo-nos ao livro do Guiness como o país do mundo com mais desenrascados por hectare. Se é que há outra terra onde se pronuncie esse nefasto verbo…
Vejamos exemplos do que não seria de esperar em mais de três décadas de democracia num país da União Europeia, mas que enegrece a nossa realidade. Seria impensável estar mais de um ano à espera para ser operado a uma hérnia inguinal (leva uma meia-hora a realizar-se), ser diabético e aguardar meses e meses para ter uma simples consulta do médico de família, se o tiver.
Na escola, toda a gente deveria já cumprir 12 anos de escolaridade, sem batotas nem facilidades nos exames. Vês isso? Ninguém vê! Abandono escolar, violência, insucesso, isso sim, são características num país que, apregoa e promete sempre quem manda, tem que evoluir. Mas como, Fernando? Com discursos só? Não! Com decisões firmes, com pessoas capacitadas, sem fuga aos impostos, sem “espertalhões”sempre com desculpas para… chegarem atrasados, sem…desenrascados nem desenrascanços. Gente consciente de que sem trabalho e seriedade não passamos da cepa torta. Acho que era nisso que pensavam também os militares que derrubaram o regime ditatorial daquela criatura chamada Salazar que mandava os que pensavam de modo diferente para aí, para esse frigideira que mandou fazer no Tarrafal. Ele era um mau perdedor. Nós continuamos a não perceber como se vence. Mas temos que o fazer, por todas as razões e para homenagear quem nos possibilitou estar a escrever estas cartas sem que amanhã nos venha a PIDE bater à porta. 25 de Abril sempre, Fernando.

Um abraço e um cravo vermelho.

António Martins Neves


1 Response to “Uma democracia “enrascada””

  1. 1 Maria

    Ora, pois, parece-me que estas falando de um país, aqui da américa do sul, colonizado por portugueses!!!
    Vinte e dois anos se passaram, desde a queda da ditadura…”Naqueles dias, quando a dita estava para ir por terra, eu estava grávida de meu filho,que acabou de completar 22 anos, pois bem eu toda cheia de esperanças, falava para aquele pequeno ser que estava no meu ventre, que ele nasceria num país lindo, rico, e LIVRE!!! Fiquei dias e dias, falando para aquele pequeno ser, da maravilha que seria, ele nascer neste país…”
    Bom, quero vos dizer que sou tão apaixonada por esta terra,que ainda acho maravilhoso nascer aqui, fazer parte de um povo gentil e solidário, que nada tem a ver com as barbáries que todo dia a TV faz questão de mostrar. Adoro viver aqui, porque somos uma mistura tão grande de raças, e de culturas, que nos sentimos parte de um grande mundo.Mas, tudo na vida tem um mas…INFELIZMENTE, nós ainda não aprendemos a escolher nossos governantes.(Não pensem vocês que o Lula é essa maravilha que o mundo mostra).Pagamos os impostos mais altos do mundo, duas vezes mais, da época em que Tiradentes se revoltou e foi enforcado, pelos portugueses,que ficou conhecinho como a Derrama, e o que temos? Filas nos hospitais, universidades públicas de ótima qualidade, que só os ricos conseguem frequentar,o pobres não tem ensino fudamental e médio de boa qualidade e na hora de prestar vestibular, os ricos que pagaram escolas particulares de boa qualidade conseguem passar no processo seletivo. E enquanto isso os mandatários do país fazem a festa, com o dinheiro do povo. E para calar, eles inventam uns programazinhos sociais, que dão o peixe e não ensinam a pescar… Enquanto isso o LULA viaja, no seu aerolula…e a corrupção come solta no poder…
    Mas, eu amo esta terra, e ainda sonho com o dia que ela será realmente livre.
    Abraço brasileiro!

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