Uma bela prenda – Carta de rena
fechado Publicado por António Martins Neves 24 Dezembro 2007 em Portugal.
Prendado Fernando,
propus-me a um exercício raro em mim: encontrar uma prenda original para te oferecer, assim à laia de tradição natalícia, algo que me seduz quase nada. Não encontrei. Ou melhor, encontrei mas não te posso assegurar o prazer de tamanha desbunda gelada, apesar de seguramente ser um dos maiores divertimentos de que usufruis-te até hoje. Fica prometido para quando me sair o totoloto, o último reduto da nossa esperança. Iremos os dois por aí acima até à Finlândia…
Terá que ser no Inverno, para sabermos o que é frio a sério e, quem sabe, ainda escrever algum livro sobre a viagem ou uma carta mais alongada. Tu levarás aquelas botas com léguas e léguas de pé, eu umas que nunca me deixaram mal visto em parte nenhuma do mundo…e o que vamos fazer?, perguntas tu. Nada mais nada menos do que tirar a carta de condução de rena. Verdade.
Uma coisa que te dá um jeitaço aí nos trópicos e que me pode transformar a mim nalgum yuppie retardado e dar um tiro na Bolsa ou noutro sítio qualquer que distinga a moda de ter a carta de conduzir aqueles animais polares (mas exóticos para as modas).
Ri-me sózinho da história. Estava a almoçar quando li o texto do Courrier Internacional com base numa prosa do The Sunday Telegraph. Foi tiro e queda: esta era a prenda indicada para o Fernando, saiu-me em milésimos de segundo. Obviamente, fiquei-me pela intenção, mas fica aqui prometido. Se um dia a ocasião se proporcionar (houver dinheiro) vamos os dois à Lapónia tirar a carta de condução de rena.
O que nos aguarda é simples: o programa diz que os instrutores apresentam-nos às renas em inglês, (imagina o domínio de língua daqueles herbívoros enrijecidos pelo gelo) e a reacção delas quando ouvirem “mister Fish” e “mister Snows”. Depois, à vez, cada um senta-se num caixote, puxado pelo animal, com quem o único ponto de contacto é uma corda laçada em volta do focinho, a que elas ligam tanto como os cavalos da GNR ao Palácio Nacional da Ajuda quando passam em frente ao monumento.
O resto é incontrolável, segundo relata o repórter do jornal inglês: o bicho, mal lhe dão oportunidade de partir, levanta um turbilhão de neve com as patas numa correria louca na pista mais ou menos circular, os instruendos ficam incapacitados de ver, a rena corre desalmadamente em direcção ao estábulo, donde aparenta nunca querer ter saído, e pronto! Impossível abrandar, mudar de direcção, reduzir a velocidade e muito menos parar. Um homem fica completamente entregue ao pânico de uma rena com mau feitio, como parece que são quase todas, e que detestam aquele tipo de folclore. Mas, como em tudo na vida, nada é completamente desagradável. Passada um semana tu poderás exibir na carteira, quando a abrires em Cabo Verde para pagar a conta do supermercado, no meio dos cartões de crédito, da carteira profissional de jornalista e do número de contribuinte, nada mais nada menos do que a permissão legal para conduzir renas durante cinco anos. Um sucesso na Praia? Não duvido. Levarás um retrato de uma rena e serás convidado a dissertar nos mais elogiados palanques dessa magnífica terra sobre as vantagens de um dia ter andado num caixote a menos de um palmo do chão arrastado por um animal enfurecido sem entender porque carga de água não o deixam andar descansadamente a comer líquenes que desenterra na neve como gostaria. Azar o dela. Cumpridas as premissas, vai ter que testar a nossa destreza. E ficará a saber que as gentes aqui do Mediterrâneo não se deixam dominar assim por uma qualquer criatura com a cabeça enfeitada por uma galhada e que uma corda bem esticada é algo que animal de cabelo jamais pode ignorar.
Um quente abraço.
António Martins Neves
PS: Estes dias a meio gás, a tua desejada visita a casa e eventuais demoras na entrega da correspondência levam-me a concordar com a tua proposta de que as nossas cartas sejam mais espaçadas até ao novo ano.

