Uma bacalhauzada eleitoral

 Eleitor Fernando,

perdoa-me mas vou reincidir e voltar a falar de apertos de mão. Contei-te uma história edificante, do timorense, mas hoje ocorreu-me falar-te de uma outra menos digna mas também com significado, embora mais negativo. Uma bacalhauzada daquelas dadas sem qualquer convicção a alguém que nos aparece de braço estendido no meio da rua. Aconteceu com um político, um membro desse grupo de pessoas especialistas em oferecer cumprimentos e porta-chaves  e pedir votos  em troca.
Morava eu noutra freguesia de Lisboa quando numa bela tarde ia pela rua e sou abordado por alguém que nunca tinha visto. Não resisti, ia com tempo, mas pensei que seria algum vendedor de pensos ou um apregoador de fé, mas não. Esquecera-me que estávamos em campanha eleitoral para as autárquicas. E o homem, com folhetos na mão, queria-me convencer a votar no partido dele – o PSD, que para o efeito pouco importa. Perguntou-me se morava na zona há muito tempo, se gostava e tal…E eu não deixei cair a oportunidade, já que ele se estava a pôr a jeito. Disse-lhe que gostava de morar na zona, mas debatia-me com dois problemas que achava requererem resolução determinada e rápida: a praga de pombos que conspurcava de fezes os prédios e o estacionamento em cima do que já haviam sido espaços ajardinados. Ele que sim, que ia registar isso, que de facto, mas mal lhe dei abertura, mudou de assunto e quis enveredar por coisas “positivas” e perguntou-me se conhecia o vasto património histórico e arquitectónico da freguesia, eu disse que em parte, que era um elemento importante, mas ainda bem que o tínhamos, mas não era problema nenhum. Era uma vantagem, uma coisa boa e eu queria era melhorar a qualidade de vida no bairro. Por isso achava que devíamos atacar primeiro o que estava mal e depois iríamos então visitar os museus e palácios. Ficou logo ali claro que andávamos cá na Terra por razões diferentes, que eu não ia votar nele, outro aperto de mão e cada um foi às suas.
Depois, quando abri o folheto que me dera, vi que o homem era o candidato a presidente da Junta. Foi eleito, sem o meu voto, obviamente, os carros continuaram onde devia estar relva e flores, mas os pombos diminuíram, justiça lhe seja feita. Um dia este eleitor ainda foi à Junta pedir contas do muito que ele não fazia, mas o autarca não revelou como baixara a população pombalina. Adiante.
Ainda lhe mandei umas mensagens por correio electrónico sobre a questão do estacionamento, mas o homem nunca se dignou responder. Retive de positivo no desempenho dele a diminuição do número de pombos. Se fez mais, não dei por ela.
Eis se não quando, julgo que nas autárquicas seguintes, o homem “salta” para  candidato a vereador da Câmara. Político puro a fazer carreira, pensei eu. Foi  eleito e lá ficou até agora. Pouco mais se ouviu o seu nome – Sérgio Lippari Pinto. Recordo-me de ter sido notícia por alegadamente ter contratado quase um regimento de assessores para o seu gabinete do Município. E nos últimos dias, com o presidente da Câmara a braços com a Justiça, lá voltou a aparecer o ex-presidente de junta mais os seus camaradas de vereação e de partido, sorridentes por sinal, na fotografia do jornal, a dizer que iam embora, que tinham acatado as ordens do líder social-democrata e por aí fora…Não tinham alternativa, acho eu.
E foi a foto que me fez lembrar o aperto de mão, me levou a contar-te este episódio mais ou menos irrelevante e ocupou-me o pensamento durante breves minutos para concluir que, mal por mal, o homem devia ter continuado na Junta a diminuir a praga de pombos. É que agora, tal como o seu presidente, assim de repente, não me ocorre nada de útil que ele tenha feito como vereador da maior Câmara do país. Mas isto é escrito por um distraído…

Um atento abraço.

António Martins Neves