Uma água com sabor muito radical
2 comentários Publicado por António Martins Neves 12 Outubro 2007 em Portugal.
Insecto-moderado Fernando,
esses pequenos animais conseguem tornar a vida difícil a “gigantes” humanos como foi o teu caso. Mas tu, inteligentemente, tiveste a atitude mais sensata que foi repartir o espaço que é de todos. Só que eles estão treinados para dominar e pequenos, pequenos, lá vão levando a água ao seu moinho. Nunca tive muitas histórias com insectos – de ratos ainda menos: o derradeiro que vi era enorme, cruzei-me com ele na rua e deu o último voo da vida dele proporcionado por um chuto enraivecido– mas um episódio nunca esquecerei. Até porque aquelas baratas, enormes e voadoras, incomodaram-me muito mais mortas do que se estivessem vivas.
1999, Díli, Timor-Leste. Chego com outros camaradas jornalistas a um país em cinzas. Íamos prevenidos com comida (enlatados), saco cama, material para sobreviver onde não existiam alternativas. “Ocupámos” um edifício vazio, uma espécie de casa de apoio à residência do então único bispo timorense, Ximenes Belo. As milícias locais que apoiavam a continuidade da ocupação indonésia de Timor-Leste haviam queimado e destruído de acordo com os planos estabelecidos pelo governo de Jacarta. E deixaram só as paredes da casa do mais alto representante da igreja católica no território, onde mais de 90 por cento da população segue esta religião.
Vá-se lá saber porquê, não vandalizaram muito a casa de apoio à residência do bispo, onde., contavam, dormiam, padres, empregados, enfim. E foi aí que eu fui parar, onde já estavam alguns jornalistas portugueses e outros chegaram comigo. O clima era pesado. Naquela altura já estavam lá centenas, milhares de militares australianos e neo-zelandeses. Mas também indonésios, embora aquartelados por imposição dos “invasores” de Camberra e Auckland. E ninguém sabia se os milicianos que tinham deitado fogo a quase tudo, morto, ferido e obrigado a seguir à volta de 200 mil timorenses para território indonésio, tinham mesmo partido todos.
Sorte das sortes, aquela casa tinha ficado com energia eléctrica e até alguns aparelhos de ar condicionado funcionavam. O comer era racionado, dormia-se onde havia espaço – de banhos nem vou falar, nem da retrete – e a água para beber vinha de uma cisterna.
Não me perguntes que não te sei responder, Fernando. Mas num país onde chove tanto, nunca entendi porque a água era guardada naquele reservatório, aparada nos telhados. Era a que havia e era daquela que tínhamos que beber.
Havia um balde preso a uma corda que deitávamos lá a baixo, enchíamos, içávamos e depois usávamos para nos lavar, para o que fosse necessário e…para beber. Calma. Não bebíamos o líquido directamente saído do depósito. Há uns comprimidos que a desinfectam e que, quanto mais é o tempo de actuação, maior é o efeito que produzem e menos a quantidade necessária para desinfectar a água.
Naquele calor húmido e sufocante que bem conheces, grande era a quantidade de desinfectantes utilizados. Eu tinha um cantil de pouco mais de meio-litro, cada comprimido era recomendado para um litro e fazia efeito para aí num quarto-de-hora. Bebi muitas vezes um líquido que não sabia nada a água mas que dava segurança de não me deixar doente. Do mal, o menos. Parecia gurosan ainda em efervescência…
Como a vasilha era pequena e a sede sempre muita, aconteceu-me muitas vezes precisar ir buscar água à cisterna de noite. A luz era quase nula, se não houvesse lua, o clima de insegurança reinava, mas tinha que ser. Ir à rua de noite não era o mais recomendável, mas a sede era constante. Daí que me tenha habituado a tirar àgua da cisterna com o balde e a colocar no cantil praticamente às escuras. Alguma saía para fora, mas a vasilha enchia e eu voltava para “quartel” com água para a noite.
Num desses serões, lá cumpri o ritual e, antes de me estender num sofá de módulos que me fazia sentir deitado num campo de trigo, cumpri aquele ritual de destapar o cantil e dar uma golada directa em vez de despejar no copo que servia de tampa.
Notei que a água custava a passar pelo gargalo e quando abanei mais o cantil entrou-me um corpo estranho na boca, que cuspi à velocidade do som…Olhei para dentro do cantil e lá estavam mais duas baratas mortas. Não morri, estou cá, não me aconteceu nada de anormal. No dia seguinte percebi o que tinha acontecido. Havia algumas baratas enormes afogadas dentro da cisterna e eu tive a pontaria nocturna suficiente para trazer pelo menos três no balde com que enchi o cantil, onde mal entravam pela dimensão. Sabes que mais? Continuei a ter que beber daquela água, porque não tinha outra. Com muito desinfectante, mas sem aquele prémio desagradável do bicharoco a passar pelos lábios…
Também mudei de “aposentos”, mais tarde, mas não foi por causa das baratas. É que o bispo voltou e precisava dos aposentos…
Um saudável e natural abraço.
António Martins Neves


Falo para o António invectivando o Peixeiro. Ó Peixeiro, conta ao camarada António como é o depósito subterrâneo que tens(ainda tens?!) no quintal e de onde esgulha a água para a tua casa. Um gajo levanta a tampa e dá de caras com centenas delas…
Portanto, António, dizeres que nunca tiveste muitas estórias com insectos desses, é mentira. Pelo contrário, tiveste, e tiveste estórias de morte… senão vejamos: ha uma coisa, caro António, é que eu sei que essas baratas sabem nadar. Vi muitas com as pernitas a-dar-a-dar lá no tal depósito. Portanto, o que se passou foi que lhes deste com o balde na mona e lá foram três pró galheiro… quer dizer… para dentro do teu cantil.
Mas não te inquietes, tenho uma amiga que, em África, acordou sufocada com uma cobra, pequena, é certo, uns 15 cm, a entrar na boca. Já lá estava dentro!! Só que, por causa da configuração da pele, sair é mais difícil. Foi um bom de um velhote que se lembrou de deitar azeite e vinagre para dentro da boca. Não se por causa disso, se não, mas que o bicho saiu, saiu. Ele há coisas do carago!
Viva, Ricardo.
Enganado. Não nadavam. Estavam bem mortas. Essas de que falas são outras e acho que não são da mesma família. Aprenderam a nadar de costas.
Abraço