Um Robin dos bosques ao contrário
Publicado por António Martins Neves 16 Outubro 2007 em Portugal.Assalariado Fernando,
já tinha feito um esforço para travar a caneta e evitar este desabafo. À primeira contive-me, mas à segunda achei que estavam há muito ultrapassadas as marcas do tolerável. Não vou pelas estatísticas: vou pela ética que falta ao presidente e fundador do maior banco privado português, o BCP. A fazer fé nos jornais, estamos em presença de um Robin dos bosques ao contrário, que tira aos pobres para dar aos ricos.
Nada disto é verdadeiramente sustentado jornalisticamente, com fontes e essas “relíquias” que dão credibilidade às notícias. Mas como os visados não desmentem categoricamente se fosse mentira, temos que acreditar que tem acusa tem razão. Aí fica-se com a ideia que aquilo que eles “sabem” é capaz de ser verdade. Como é tão grave e os atingidos calam-se é porque há fogo por baixo do fumo.
Passemos às “histórias” não desmentidas: Jardim Gonçalves, ”homem forte” do BCP terá perdoado 15 milhões de euros de dívida ao filho no banco. Quando faltavam contabiliazar os estragos de uma, outra: segunda-feira, nova bomba explode em cima do homem tão elogiado, apreciado, quase endeusado pelos fazedores de opinião: perdoara mais 15 milhões a um accionista do banco, em juros para comprar acções da própria instituição. Mau…
O pior é que tudo se passou há três anos, em 2004, e ninguém parece ter dado por nada até agora. Nem os muitos administradores do banco, nem o fisco…Tudo se sabe após uma guerra que o anterior presidente do banco perde para o fundador que o propusera para o lugar…Jardim Gonçalves. Soa mal isto, não é? A mim também!
Tudo ganha um cariz mais “negro e sisnistro” quando se conhece que Gonçalves, tal como o seu anterior delfim, agora “inimigo” afastado, Teixeira Pinto, são membros daquela organização católica (e secreta, ou discreta como eles preferem chamar-lhe) que dá pelo nome de Opus Dei.
Católicos profundos, convictos, até à medula, com a bíblia a guiá-los, seguramente.
Mas então Jardim, que acolhe os “ensinamentos divinos” permite-se fazer isto? Perdoar aos ricos e continuar a cobrar incessantemente aos pobres? Virá ele outra vez com a história de cobrar as operações do multibanco aos “tristes” clientes a quem fomentou o uso do cartão, que vivem do trabalho que cumprem todos os dias, e a quem “ameaça” ir cobrar taxas por cada levantamento para dar aos accionistas?
É este o mesmo homem que depois perdoa 30 milhões ao filho e a um outro investidor? Diz-me que não estou bom da cabeça, Fernando! Ajuda-me! Porque isto é uma carrada que a minha camioneta não suporta.
Falamos sempre da corrupção e dos desvarios nos serviços do Estado, mas pelos vistos o “mal” está também em quem tanto critica a administração publica. O tal accionista a quem dizem ter sido perdoada a dívida, chamado Goes Ferreira, veio entretanto dizer, que não foi perdão nenhum mas que renegociou a dívida. Mas era uma dívida de juros, não para saldar definitivamente um empréstimo. Imagina os valores…
Claro que já surgiram os clientes a exigir tratamento igualitário, aqueles que pedem que lhes seja perdoado o crédito à habitação, para compra do carro, para mobilar a casa, que é quem verdadeiramente permite aqueles lucros de dezenas de milhões dos bancos que nos cansamos de ouvir todos os anos, a quem cobram tudo e mais uma transferência até ao cêntimo. A ateus como eu, nunca terei perdão nem no céu e trabalho todos os dias. Mas olha, Fernando, se fores amigo do Gonçalves, pede-lhe um perdãozito para te livrares do encargo da casa mais cedo, ou que feche os olhos ao cartão de crédito ou…que invista o dinheiro que dizem perdoar perdoar ao filho e ao amigo a apoiar os milhares de desempregados a quem os banqueiros batem com a porta na cara. Função social no BCP? Qual função social? Dinheiro com fartura e do lado deles…Abençoem-se os accionistas e esmifrem-se os que não fazem chegar o ordenado ao dia 30…De certeza que pensas voltar para cá nos próximos anos, Fernando?
Um revoltado abraço.
António Martins Neves
PS. Quando receberes esta carta estarão eles a anunciar uma averiguação ao que se passou. Diz o Jornal de Negócios, que foi o cavaleiro desta jornada…



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