Incrédulo Fernando,
o Verão estava ali a descair para o Outono e na praia quase ninguém. Quem podia, ainda consumia o último calor que o sol proporcionava e o vento permitia. Estávamos nos anos 80 e o campismo selvagem era tão comum como hoje andar de óculos escuros na cabeça um dia inteiro. Um amigo meu vendia electrodomésticos e eu ajudava-o nos momentos livres. Na altura eram comuns as televisões (a preto-e-branco), que funcionavam ligadas a uma bateria igual às dos automóveis. A electricidade da rede estava longe de chegar a todos. Um dia chegou mais uma encomenda e Vitorino P. perguntou-me se o queria acompanhar. A dois era sempre mais fácil fazer as ligações da antena e direcionar a dita para se verem os bonecos dos dois canais da RTP.
A primeira invulgaridade: a televisão, a bateria, era para ser montada na tal praia, numa autêntica tenda de campismo. Alguém havia concluído que nem a banhos dispensava a “caixa mágica”. Lá fomos. Era de tarde, estava sol e vento e a tal tenda lá estava, entre um restaurante, igualmente clandestino, e logo atrás da duna primária. Toca de carregar o aparelho, as ferramentas, mais a antena e os cabos. Fui o último a abeirar-me da barraca, daquelas com avançado, um “quarto” de cada lado e a “cozinha” e “sala” ao meio. Acho que pousei o equipamento que levava na areia e voltei à viatura buscar o restante.
Só da segunda vez  algo de muito invulgar me surgiu. Pareceu-me ter ouvido um ruído vindo da tenda nada comum em campismo, que fazia e fiz durante muitos anos. Como estava vento não liguei e pensei ter sido ilusão auditiva. Quando meti o nariz na tenda é que o olfacto veio confirmar o que a audição me havia advertido: estava ali um porco. Poderia ser? Podia, pois! Do lado esquerdo de quem entrava, no avançado fechado com panos, a exemplo da mais vulgar das marquises nacionais, estava um caixote e dentro dele um verdadeiro leitão. Rosadinho, teria aí uns dois meses de idade, irrequieto naquela prisão apertada, e emanando aquele cheiro tão característico e desagradável, por maioria de razão dentro de uma acanhada tenda de campismo. Mas aquilo era lá possível? Era. Saí de mansinho e deixei-me cair de joelhos na areia a rir, as lágrimas a cair como só me lembro de ter voltado a acontecer daquela vez que o Fernando C. cantou o fado numa cave de um restaurante do Bairro Alto. Eu acabara de ver um porco dentro de uma tenda de campismo. Indaguei e a explicação era fácil: o casal de meia idade decidira ir acampar e achou que o leitão não era impedimento e que conviviriam bem com o seu grunhir e o natural cheiro do animal. Lá estavam, o homem e a mulher a disfrutar a maresia de Setembro e o porco a protestar com a exiguidade do espaço a que estava confinado, como se de um coelho conformado se tratasse. Jamais vi um leitão ou varrasco que fosse a andar de bicicleta, mas  posso contar-te que já vi um porco-campista.

Um hilariante abraço.

António Martins Neves


1 Response to “Um porco a banhos”

  1. 1 Ana Santos

    Adorei o porquinho! E aqui deixo a minha achega.

    Na sociedade e cultura portuguesas este animal detém uma grande importância a vários níveis tais como o económico, o cultural e o simbólico. Basta tomarmos atenção aos nossos ditos populares para vermos a importância do porco no nosso seio. No económico:
    . “A raça é nobreza, a cabra é mantença, a ovelha riqueza, mas o porco é tesouro.”
    . “Morto por morto, antes a abelha que o porco.”
    Na nossa religião:
    . “No dia de Sto. André pega o porco pelo pé, se ele disser cué-cué, diz-lhe que tempo é, se ele disser que tal, que tal, guarda-o para o Natal”;
    No sócio cultural e no imaginário português:
    . “Lavar o focinho a porcos, as orelhas a burros, pregar a padres e converter judeus, é tempo perdido.”

    O porco é um símbolo da personalidade do povo português e tão presente porque é, ao lado do cão, um dos companheiros mais fiéis do Homem.

    E este provérbio: “Se queres conhecer o teu corpo, mata o teu porco”, o que levou os antigos a criá-lo? A resposta está na Medicina que se pratica actualmente… O povo já se tinha apercebido que os porcos são um dos animais mais importantes e daí a sua valorização, a sapiência colocada sob a forma de provérbios.

    E outra pergunta: Porque razão George Orwell escreveu O Triunfo dos Porcos e não usou outro animal doméstico mais ligado ao homem,como por exemplo o cão? – O Triunfo dos Cães… Será que George Orwell identificava no porco um animal que detinha as capacidades e qualidades inerentes ao ser humano?

    Resumindo e concluindo, um animal que é bem menos porco que muitos outros. Ignoro deliberadamente a ideia generalizada de que o porco é um animal sujo, impuro e repleto de significações pejorativas.