Um país de coincidências

Desalentado Fernando,
eu vivo no país das coincidências, onde quase tudo acontece por acaso e quase ninguém tem verdadeiramente responsabilidade por nada. Um bocado como aí, mas se calhar com mais coincidências, coisas que acontecem por acaso, mas que mentes deformadas acham que é porque as pessoas são más, governam-se em vez de governarem, usam os dinheiros públicos com se fossem seus…tudo indignidades que deviam envergonhar quem as atira pela boca ou apenas pensa tamanhas barbaridades.
Primeiro exemplo: há por aí um regimento de más línguas que vê promiscuidade no facto de Joaquim Ferreira do Amaral ter ido recentemente para presidente da empresa com quem assinou um contrato de exclusividade quando era ministro das Obras Públicas, há mais de dez anos.
Essa mesmo em que estás a pensar, a Lusoponte, a quem o Governo, então liderado pelo actual Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, entregou a exploração da Ponte de 25 de Abril e da Vasco da Gama, na altura ainda em projecto ou em construção, e garantiu à mesma empresa que todas as travessias sobre o Tejo na  região de Lisboa que o futuro trouxesse iriam direitinhas para o seu regaço. Então esta ida para a Lusoponte pode ser mais que uma coincidência, Fernando? Como é que alguém pode…
Do mesmo modo que a decisão de fazer a Ponte Vasco da Gama onde ela está foi um puro acto de transparência de Amaral, ao contrário do que mentes parcas em seriedade quiseram fazer crer na altura. Então não te lembras que a decisão foi puramente técnica, baseada num parecer do Conselho Superior de Obras Públicas, assinado por três dos seus cerca de 30 membros. O parecer não recomendava aquela localização? Bom, isso deve ter sido alguma distracção. O que importa é o resultado e a visão de futuro do então ministro. E alguém pode exigir melhor? Ir  a atravessar aqueles 11 quilómetros sobre o mar da palha e deslumbrar-se com aquela linda floresta de prédios que cresceram quase da noite para o dia em Alcochete, Montijo e arredores devido à magnânime decisão do então responsável pelas Obras Públicas. Tanto empreiteiro feliz, os bancos contentíssimos, a Lusoponte satisfeitíssima da vida, com as portagens sempre à cunha, uma coisa moderníssinma, uma empresa de sucesso, tanta gente de sorriso estampado no rosto… E depois vêm atirar-se às canelas de um ex-ministro só porque foi  convidado para presidir à empresa que “ajudou” a fundar e quem se encarregou de lhe garantir o futuro?
Só quem vive com o mal no coração poderá ter tais pensamentos, Fernando. Então não se vê logo que tudo foi uma coincidência? Daquelas que devem ocorrer também por aí..
E por falar em florestas, lembrei-me que um outro anterior ministro também foi  “vítima” de uma coincidência parecida e houve quem visse logo razões para deitar  o nome do homem na lama. Se calhar inveja. Lembraste de Álvaro Barreto, aquele distinto ministro da Agricultura, por coincidência também em governos de Cavaco Silva? Outra vítima. Quando governou, foi um homem de coragem ao autorizar plantações de eucaliptos de Norte a Sul, de Poente a Oriente. Ficou o país verdinho, os proprietários arrendaram as suas courelas por bom dinheiro às empresas de pasta de papel e foram viver para a Amadora, Cacém, Brandoa e outras metrópoles onde se habita com grande dignidade e retratam de modo inigualável a evolução deste nosso Portugal. Um direito que lhes assiste, obviamente. Finalmente alguém arranjava um futuro para o país rural.
E que aconteceu ao tal ministro, conhecido por essa característica ímpar de assobiar melhor do que muitos pastores a mandarem os cães às ovelhas? Quis o  destino que saísse do Governo – uma injustiça para ele, uma perda para o país, estou em crer – e fosse directamente presidir a uma dessas empresas de celulose que encheram o país de eucaliptos, esse “petróleo verde” como se regozijavam na altura os seus acérrimos defensores. Vês alguma promiscuidade nisso, Fernando? Eu sei que não! Foi coincidência… Clarinho como a água. O senhor tratou da sua  vidinha como qualquer empreendedor e gestor reputado, como agora se diz muito. Então se as pessoas são competentes…Esses más línguas que andam por aí têm é inveja. Não te parece? Ou estarei também eu a ficar obtuso, Fernando?

Venha de lá um abracinho.

António Martins Neves


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