Descansado Fernando,
hoje achei que te devia falar da nossa profissão de jornalista. Acho que é a melhor do mundo, mas isso sou eu. Mas não estou só. Aqui no quentinho, fiquei a saber que há quem publique um jornal numa árvore, Fernando! E ainda por cima no pior sítio do mundo para se viver neste momento: Darfur, Sudão. Venho propor-te uma homenagem a Awatef Ahmed Isaac, 24 anos, jornalista no inferno à face da terra.
Se fosses em linha recta daí, de Cabo Verde para oriente , ias parar lá perto, do outro lado do continente. Atravessavas o deserto do Sahara e quando chegasses à fronteira do Chade com o Sudão devias começar a perguntar por uma terra chamada Al-Facher, coração de uma guerra civil devastadora. É lá que vive essa mulher de que te falo. Há dez anos que publica um jornal numa árvore. Lembraste de te falar da importância das árvores em África? A jovem sudanesa já foi tema de reportagem num dos mais prestigiados jornais do mundo, o norte-americano Washington Post, mas não conseguiu abandonar a árvore. Muito menos acabar com a guerra que devassa a sua terra, matou-lhe a irmã e ninguém sabe quando vai acabar.
E foi precisamente a morte da irmã mais velha – numa terra onde nos últimos tempos outras 200 mil almas foram mortas por razões étnicas e religiosas e muitos milhões vivem à beira do precipício que os atirará para a vala comum da morte – que levou Awatef a publicar um jornal que pendura numa árvore. No Ocidente seria um jornal de parede.
A irmã queria ser jornalista e foi morta. Awatef quis honrar a sua memória e ombreou com o desafio que a irmã perseguia.
No Darfur, uma região do Sudão com uma área equivalente à França, a população é morta e escorraçada há alguns anos pelo regime islamita que domina o país e que já deu guarida a Bin Laden. Os habitantes são negros, e como tal os senhores árabes que governam aquele autêntico “continente” decretaram uma verdadeira guerra civil contra quem exigia um tratamento idêntico aos restantes habitantes do que é o país mais extenso de África.
Nada feito. Nem a ONU quase lá entra e raros são os jornalistas que conseguem relatar o martírio daqueles milhões de pessoas.
Foi essa barreira que a irmã de Awatef quis ultrapassar, relatando o que faltava na sua terra e originou a revolta das populações. A agência France Press noticia de lá que ela quer “um jornal diário, uma tipografia e um carro”. Já conseguiu que lhe oferecessem um computador portátil, uma pequena conta num banco e um prémio de um movimento de libertação local, mas diz que isso não lhe basta. Quer ir estudar jornalismo para o Líbano. Enquanto não consegue, resta-lhe relatar o quotidiano numa única folha. Lá, como em todo o lado, é preciso haver notícias e memória. Se tudo o resto faltar, há-de haver a coragem de uma mulher e o tronco de uma bela árvore.
Um emocionado abraço.
António Martins Neves

