Protegido Fernando,
tiros aqui, tiros aí…o mundo é um local muito violento e estes dois países onde cada um de nós vive também teimam em deixar de ser os sítios pacatos porque eram conhecidos. Quem tem morrido não são cidadãos comuns, a avaliar pelas notícias, citando as polícias. Nem aí nem aqui. E quem mata, obviamente, também não. Nestes casos, as polícias dizem que estão a fazer o seu trabalho e que ele vai aparecer. Onde não sei se isso acontecerá é na situação que te trago ao conhecimento hoje.
Numa determinada região de um país onde vigora uma democracia, o respectivo Governo incluiu no orçamento para o próximo ano “dezenas de obras já inauguradas”, enquanto há outros “empreendimentos edificados em terrenos que só agora estão a ser expropriados, para serem pagos em futuros orçamentos”. Dois exemplos apenas.
Onde te aparece que isto acontece? Em África? Frio! Na Ásia? Gelado. Na Europa? Quente! Em que país? Portugal. Isso mesmo, na Região Autónoma da Madeira.
Claro que nada disto serviu de desculpa para o PSD de lá e o seu eterno líder ganharem sempre eleições, entrar naquele ritmo frenético de uma inauguração por dia, nem ninguém sair prejudicado por isso…
Li no Jornal Público explicações, sem que encontrado chegado desmentidos até à hora a que te escrevo, acerca das simples artimanhas da estratégia do “senhor” das duas ilhas habitadas no meio do Atlântico: Alberto João Jardim, acho que já ouviste falar…
É simples, meu amigo: as obras que vão ser pagas este ano e já estão prontas obedeceram ao critério de que teriam que ficar prontas antes das eleições regionais do ano passado. Quem avançou o dinheiro para as fazer não sei, mas podemos pensar cinco minutos no assunto. Claro que Jardim ganhou folgadamente. Quem perdeu foram os donos dos terrenos que foram ocupados pelas obras e ainda não viram o dinheiro. O jornal diz que o Governo Regional deve pagar-lhes nos “próximos orçamentos”, o mesmo que dizer nos anos vindouros. Algo de anormal nisto? Para a Madeira é o pão nosso…Mas se pensarmos que isto acontece num regime democrático, a arquipélago ainda se incluirá nas rotas de férias daqueles ditadores todos de África que estiveram aqui na Cimeira de Lisboa com a União Europeia, para aprenderem umas coisas. Têm muita tarimba a ouvir para conseguir chegar aos calcanhares de quem trata assim os seus conterrâneos, empenha toda uma região e exige que o aplaudam e votem nele. E o mais triste é que fazem tudo o que ele quer. E não será só da poncha…
Fico admirado é por tamanho especialista em marketing político à moda do tereciro mundo não ter criado ainda uma receita, um “kit”, um manual, uma pós-graduação especialmente vocacionada para ditadores dispostos a apresentar um discurso democrata e chegarem ao extremo de admitir eleições. Ele ganhava umas massas e os outros ainda mais poder…Se seguirem o exemplo, têm garantidos 30 anos de .liderança absoluta, pelo menos. O preço? Bom, sejamos sinceros…O Público, cintando a oposição socialista, conta que a dívida directa na Madeira passará este ano para 528 milhões de euros, mais uma dívida indirecta de avales a atingir 1.500 milhões de euros, mais 350 milhões assumidos e não pagos e outros 1.000 milhões devidos pelo sector público empresarial. Soma feita, o arquipélago tem uma dívida de 3.378 milhões de euros. Alguém há-de pagar, mas Jardim não me parece que seja, até porque não vejo ninguém verdadeiramente empenhado em obrigá-lo a fazer e acabar com o deboche financeiro e político naquela terra. Será por ser difícil saber a que bolsos foram parar os milhares de milhões que faltam?
Um pobre abraço.
António Martins Neves

