Um homem e os seus pesadelos
fechado Publicado por António Martins Neves 19 Janeiro 2008 em Portugal.
Desperto Fernando,
há grandes homens movidos por sonhos e há outros que parecem funcionar à base de pesadelos. Como contraponto a esse figura histórica de Amílcar Cabral, ocorreu-me que temos aqui um que, além de incomparável, a não ser na altura, quer mostrar ter um sonho, mas tudo não passam de tormentas que lhe apoquentam a cabeça e que ele não sabe afastar, nem ao menos para dormir um sono tranquilo. Haverá muitas pessoas a viver esse drama, mas esta preocupa-me particularmente, porque é o líder do maior partido da oposição, o PSD, e chama-se Luís Filipe Menezes. E a oposição num regime democrático é fundamental…
Costuma dizer-se que quando nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Os ditados enganam muitas vezes, mas no caso de Menezes este encaixa como duas peças de lego. Já te dissera anteriormente que o também presidente da Câmara de Gaia e pediatra de profissão um dia prometeu abandonar a vida política e veio anunciá-lo publicamente e em família. Na onda de Santana Lopes, com a história das facas metidas nas costas pelos “amigos”. Sempre sol de pouca dura.
Na mente estava sempre o sonho (não será antes pesadelo?) de ascender a líder do PSD e, quiçá, vir um dia a ser primeiro-ministro. Se bem o pensou, melhor o programou. Concorreu contra Marques Mendes uma vez, perdeu, mas não se conformou e foi infernizando a vida ao líder do partido até que acabou por vencer. A mim parece-me mais por cansaço. Lembra-me aqueles filmes de séria B do Oeste americano em que os dois inimigos, já sem balas, equilibrados na força, passavam o dia inteiro a esmurrar-se mutuamente, o duelo de punhos prolongava-se até ao pôr-do-sol e quase quando caía a noite um dos dois sucumbia ao cansaço. A ascensão de Menezes sugere-me um cenário de coboiada destes.
Mas lá conseguiu o seu “sonho”, que em pouco tempo reconheceu ser mais parecido com um pesadelo. Nem três meses a liderar o maior partido da oposição ao governo socialista e já se sentia acossado por opositores internos e os desafiava para as baterem numas eleições directas – estás a ver mais uma sessão de socos até anoitecer numa rua poeirenta…Seria a sua própria sombra?
Também teve uma ideia peregrina quando se fala até à exaustão e desde que me lembro em despolitizar as instituições, ao sugerir que a Caixa Geral de Depósitos devia ser presidida por alguém do seu partido, na mais pura lógica de distribuição de tachos alimentada pelo bloco central constituído pelo PS e PSD. Incrível é que conseguiu e o Governo meteu a presidir ao maior banco do país, dominado pelo Estado, Faria de Oliveira, um ex-ministro de um executivo então liderado pelo actual Chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, antigo presidente do PSD.
Não te quero atormentar com infelicidades, mas o melhor que retive de Menezes recentemente nas jornadas parlamentares do seu partido foi ele a dizer quem é que deviam ser os comentadores televisivos de que partidos, a que dias deveriam ser os “tempos de antena” e, para fechar em beleza, segundo li, que meia hora na televisão vale mais do que eleger 15 deputados.
Ora diz lá, Fernando se não há homens que vivem num pesadelo eterno e julgam estar a sonhar? E, por incrível que pareça, ninguém os acorda para a realidade. Quem se regozija com estas autênticas convulsões sonâmbulas, sei eu quem é, mas até não te vou dizer, para tentares adivinhar. Só te dou uma dica: é alguém que de cada vez que ouve um disparate daqueles de valente quilate saído da boca de Menezes faz um esforço enorme para não pegar no telemóvel e ligar-lhe só para lhe dizer:”Porreiro, pá”.
Um acordado abraço.
António Martins Neves

