Um homem e a sua tuba

Ritmado Fernando,

fim-de-semana, verão à porta, férias a aproximarem-se, tendo a amenizar as “descascas” de que tu falas. E hoje achei que, e contribuindo para o teu repouso semanal, irias gostar de saber quem foi Ismael B., um tocador amador de tuba que já não se encontra entre nós e que conheci já lá vão uns valentes anos. Não era um músico genial da filarmónica, tocava a sua parte, como usa dizer-se, mas o que mais evidenciava nele era o relacionamento com aquele instrumento agigantado.

As histórias abundam, umas verdades inquestionáveis, outras com uma bela pitada de imaginação, mas naquela banda o homem da tuba era o que mais episódios preenchia na memória do grupo musical. Quase sempre pelo divertimento e pela postura descomprometida. Se não te recordas agora, e é natural, a tuba é um dos maiores instrumentos de sopro que existem. Maior só o suzofone, aquele que  dá várias voltas ao músico e fica com a campânula por cima da sua cabeça, que quase só é usado nas bandas militares.
A tuba não dá a volta a ninguém, mas é pesada e dispõe até de um sistema paraaliviar o executante. Uma correia passada a tiracolo, uma mola que prende no instrumento e a vida fica mais fácil para o músico, que convém ter alguma capacidade física
Ismael B. tinha-a e essa seria uma das razões porque quando saía para dar concertos ou fazer arruadas com a banda nunca abria mão da tuba, gostava de a ter sempre por perto. A outra, a mais importante, era o grande volume da campânula e a sua enorme capacidade para armazenar o que a imaginação e o apetite de um músico conseguisse.
Contam os companheiros de marchas, rapsódias e outras peças musicais que a dupla inseparável, coadjuvada pelo boné da farda da banda, começava outra actuação quando a música acabava e as partituras regressavam à pasta. Era quando chegava a hora do lanche, almoço, petisco ou jantar que quase sempre reconfortava o esforço dos executantes que Ismael se distinguia dos colegas: os outros limpavam e arrumavam o instrumento, mas ele continuava acompanhado pela sua tuba. Um petisco daqui , um salgado além, uma perna de frango na outra mesa, uma cerveja para quebrar a sede, um tinto a seguir, se não fosse branco, e a tuba ali…Conversa, muita conversa, histórias, anedotas, convívio e o enorme instrumento, que dá aí pela cintura de um homem de meia estatura, sempre ali, uma espécie de testemunha, uma companheira para as boas e as más horas.
A verdadeira razão daquele apego só ficava perceptível quando o grupo retornava ao habitual autocarro que os levava de volta a casa. Ismael B. lá entrava com a sua tuba e…recomeçava o petisco. Diz quem viu que quando tirava o boné que cobria a campânula chegaram sair lá de dentro garrafas de vinho por abrir, sandes incontáveis, salgadinhos e até mesmo frangos assados inteiros. Uma vez, narram testemunhos, o calor do convívio terá feito esquecer a hora de regresso e Ismael ficou em terra…com a tuba claro. A solução foi pedir boleia para casa. E asseguram os relatos, o condutor que parou não se arrependeu e foi justamente compensado. Naquela dia a tuba vinha bem atestada para um merecido piquenique. Mas como todos os “amores” têm os seus momentos baixos, Ismael teve à beira de se “divorciar” do instrumento.
Foi num os últimos ensaios para a digressão da vida de Ismael e muitos dos seus companheiros músicos: uma ida,  de autocarro, a França. Davam-se os últimos retoques no reportório, afinava-se a boa figura requerida além fronteiras, o maestro tinha feito um intervalo para as embocaduras descansarem e as traqueias serem ressarcidas do esforço e quando iam recomeçar aconteceu o que não podia acontecer, no pior momento da história de um músico. Quando Ismael pegou na tuba que repousava no chão, assente na sua larga campânula, só meio instrumento anuiu ao gesto. A parte assente no chão ficou. A tuba dessoldara-se a escassos dias de partir a caminho de Paris.
O homem de quem te falo foi invadido por uma autêntica onda de terror, misturado com desânimo, a mais profunda tristeza que um ser humano consegue suportar. Os colegas só perceberam que algo de grave se passara quando lhe ouviram: “Olha, acabou-se a banda, acabou-se a França, acabou-se tudo!”. Era um sonho a esboroar-se ali, como um sopro incapaz de produzir a mais ténue nota. Para te deixar descansado, uma correria contra o tempo conseguiu reparar a tuba em cima da linha de partida e Ismael B. conheceu Paris. Tocar, tocou, já se houve petiscos depois dos almoços ninguém se recorda.

Um musical abraço.