Sortudo Fernando,
conhecer gente assim como Lela Violão é privilégio do grupo dos poucos sortudos de que fazes parte. E nem imaginas o quanto isso me deixa feliz, a mim que ando aqui a roer-me há dias porque há uma criatura, que ocupa um dos lugares mais importantes, politicamente falando a nível mundial, mas além de não tocar nada de música, não consegue falar com essa leveza de alma e o desprendimento do músico cabo-verdiano. É que enquanto aí a pessoa vale pelo que sabe, Durão Barroso, é esse o homem de que te volto a falar, afirma-se por aquilo que não sabe ou que diz não saber. Dá para acreditar? Bah!… É verdade? O tempo o dirá…
Nestes momentos entendo bem a tua vontade de regressar a Cabo Verde e aos muitos Lela Violão que por aí existem. Gente que vive com gosto, têm quase nada e são honestos, carácter, vivem com gosto…Isto dito assim a frio pode parecer pouco cordial, mas eu explico-te rapidamente o que me vai o espírito: o actual presidente da União Europeia, ex-primeiro-ministro de Portugal, José Manuel Durão Barroso, diz que desconhece que o partido que liderava em 2001, o PSD, recebeu um financiamento ilegal de uma empresa de construção civil chamada Somague, uma das maiores do país – a segunda, salvo erro.
Já te tinha falado do caso numa das cartas que te dirigi, mas nessa altura não conhecia a “reacção”: ignorância pura e dura. O líder de um partido desconhece os financiamentos, irregulares ou não que esse partido recebe, mesmo que atinjam valores superiores 230 mil euros. Acreditas? Adiante…
Vem um dos seus acólitos de então chamado José Luís Arnaut, secretário-geral do partido à altura, assumir que a responsabilidade é dele e sai pela porta do fundo como se dizer isso resolvesse o problema. Mas remata ainda que era um secretário-geral-adjunto, Vieira de Castro, incapaz de se pronunciar por razões de saúde, que tratava das finanças dos sociais-democratas.
Lá pelo PSD não sei se vêem gravidade nisto, mas na Comissão Europeia a notícia parece ter tido destaque nos gabinetes. Por cá, tem merecido quase nada de destaque. Fraca solidariedade esta! E só quem não quer é que não vê: então um gestor de uma casa não sabe o dinheiro que entra e sai. Não estamos a falar de trocos… E admitindo que fosse possível isso suceder, não instituiu regras de transparência e comportamento impeditivas de atropelos destes à sua equipa porquê? Lá em casa cada um agia como bem lhe apetecia desde que depois assumisse e assobiasse para o ar? Mais outra culpa a morrer solteira e virgem? Bom, mas agora o homem de quem se fala é presidente da Comissão Europeia, que não é suposto ser um clube de amigos e costuma apregoar belos princípios de justiça e de ética. Vai ficar tudo na mesma, Fernando? Desta vez não acredito…Se fosse por cá, tinha dúvidas que sucedesse algo além de umas indignadas conversas de café do pouco povo que lê jornais e ainda se preocupa com essas questões.
Em Bruxelas não creio. Foram eles que o escolheram, mas isso não lhe dá carta branca para tudo. Passe férias com milionários amigos, desloque-se num dos carros mais poluentes que rodam na Europa, arme-se em “penetra” para se fazer fotografar a lado de Bush e Blair assinando de cruz um papel em branco com supostas provas para justificar uma guerra no Iraque que ninguém sonha sequer quando vai acabar…
Mas a União Europeia, acho eu, tem um património de transparência, justiça e comportamentos éticos a defender que custarão muito mais a defender se o líder não der o exemplo e não conseguir explicar essa coisa do financiamento do seu partido por uma empresa de construção civil. Deve ter sido pelos lindos olhos de quem liderava o PSD na altura, que até ganhou as eleições a seguir. Acho que peixe deste eles não compram lá na Bélgica. Porque não cumpre as regras mínimas para poder ser consumido. Está fora de prazo e é um perigo para a saúde pública de 450 milhões de pessoas que vivem por aqui na Europa Ocidental, onde, concorde-se ou não, se fundaram os pilares desta civilização em que vivemos. E onde ainda imperam alguns princípios. Menos que o desejável, é certo, mas lá vão fazendo o caminho.
Eu sei o que fazia falta aqui na União Europeia. Dirigentes sérios da escola de Lela Violão e que…tivessem trabalhado uma vida inteira para educar uma trintena de filhos. Além de combaterem o défice populacional, iriam ver o mundo com olhos de gente e não se deixarem ofuscar assim com o brilho das luzes e do dinheiro. Cá fico sentado à espera do desenlace, Fernando, e a manter-te a par de todos os pormenores que me forem chegando sobre este “financiamento”.
Um transparente abraço.
António Martins Neves

