Um curso de mortes
Publicado por António Martins Neves 22 Agosto 2007 em Portugal.Saudável Fernando,
estas questões dos direitos humanos e da justiça, principalmente quando se fala das crianças, são, sem dúvida, aliciantes e todo o esforço é pouco para melhorar o nível da civilização. É obrigação de todos avançarmos no campo dos valores, que obrigam naturalmente a alterar comportamentos, em nós, humanos, uma espécie tão conservadora como outra qualquer, mesmo irracional como são todas as outras. Ou parecem. E precisamos saber lidar com algo que é exclusivo nosso, enquanto desfecho inevitável da vida: a morte. E estamos muito mal preparados, pelas mais variadas razões, para lidar com ela. Mesmo os profissionais pagos para tratar de enterros e todos aqueles rituais que antecedem a descida à cova nem sempre se saem pelo melhor. Daí que tenha ficado a olhar para uma notícia de uma ideia, provavelmente muito oportuna, de criar uma escola para coveiros, em Elvas.
É uma profissão pela qual tenho o maior respeito. Porque não me consigo ver no lugar deles, cumprindo aquele exercício corriqueiro que fazemos quando queremos avaliar a postura e comportamento de alguém. Na notícia diziam que é uma empresa com grande quota de mercado que quer ensinar, agora digo eu, os modos de enterrar alguém e deixar a família (viva) “satisfeita” com o desempenho. Diziam e falavam de muitos aspectos, mas achei que esqueciam um fundamental: preparar pessoas para passarem os dias a enterrar outras é algo para que ninguém está preparado, por mais que o diga. E nisso não tocavam.
Dou-te alguns exemplos, Fernando. Conheço pessoas que tiveram que lidar, ou ainda o fazem, com a classe, por trabalharem em câmaras municipais. Dizem-me que um dos maiores problemas da classe dos coveiros (ou enterradores) é o alcoolismo. Entende-se. Poucos aceitarão a função por acharem ser um emprego interessante, quase todos porque é uma oportunidade de ter um trabalho e um rendimento ao fim do mês que permita sobreviver. Depois, aguentar aquela rotina é que são elas.
Conheci um coveiro que se comportava de uma forma pouco convencional para o meio onde vivia. Além de, aparentemente ter dependência do álcool, tinha gado e labuta, incluindo uma vaca leiteira a que um dia o vi agarrado ao pescoço, aos beijos no focinho do animal: “Tu não me deixes, minha linda, tu não me deixes”. A mulher não estava por perto, mas a doença do animal preocupava-o de uma forma pouco usual numa relação homem-bovino indiciadora do pior. Reparei também que secava os figos das figueiras da courela em cima das chapas de zinco que recolhia dos caixões quando “levantava” os restos mortais passados os cinco anos da praxe em que dizem que os micro-organismos nos devoram as entranhas e só nos deixam o esqueleto. Provavelmente, ninguém avisado terá metido o dente naqueles frutos passados sem ser ele. Mas lá enterrou amigos e inimigos, acaso os tenha tido, até também chegar um dia a sua vez. Deve ter sido o colega do lado que teve que desempenhar a tarefa de cobrir e compactar os torrões em cima do companheiro de trabalho.
Mas o homem a quem vi brotarem-lhe lágrimas pelo rosto abaixo por causa da doença de uma vaca, e que por questões profissionais, metia debaixo do solo humanos que sucumbiam à vida, nem é o caso mais trágico que ouvi sobre coveiros. O mais violento mesmo, Fernando, foi o daquele, cujas contingências de escalas, de falta de solidariedade dos companheiros, da burocracia da função pública a que pertencia e de várias outras, ter-se visto confrontado com a obrigação de enterrar a própria mulher…Conta-me quem assistiu ao desenrolar do processo que o fez de forma profissional – se é possível dizê-lo assim, friamente - mas nos dias seguintes ninguém lhe ouviu palavra. Espero que lá na escola de Elvas pensem nesses casos. E podem dar também como exemplo o daquele profissional que, quando arrasava mais uma cova, a família do morto ainda presente, enevoado pelos vapores do álcool, se distraiu e atirou uma ponta de cigarro para cima do caixão, entre duas pazadas de terra. O gesto caiu mal nos presentes e valeu-lhe um processo disciplinar daqueles difíceis de resolver. Seguro, seguro é que vão ter muitas matérias para ensinar lá no curso. Se quiserem preparar profissionais para lidar com o nosso fim, algo que nos ensinaram a ignorar, a fugir e a afugentar, vão ter muito que ministrar aos candidatos…Será o chamado “curso de morte”!
Um vivo abraço.
António Martins Neves



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