Paciente Fernando,
neste fim de semana prolongado não me fui plantar em nenhuma sala de cinema. Quiseram as contingências que viajasse, atravessasse o Baixo Alentejo do litoral para o interior, o que, tenho que te confessar, daria um grande filme. Uma espécie de “Através das oliveiras” à portuguesa. Qual câmara fixa no carro e o génio do iraniano Abbas Kiarostami teria produzido um conjunto de belas imagens com um fio condutor assegurado pela estrada que iria deliciar gente como tu, que gosta de ver compor uma boa história no écrã, com pinceladas, tornando especiais momentos aparentemente banais.
Se quisesse resumir-te tudo a uma frase, dir-te-ia que fui beber um café a ver o grande rio do Sul. Isso mesmo: fui beber um café a Alcoutim, com o Guadiana aos pés. Trinta graus tórridos, e exagerados, depois de frio e chuva. Falei-te há umas semanas do grande lago que o rio originou com o paredão que lhe atravessaram no caminho lento em Alqueva. Ali, em Alcoutim, onde separa Portugal de Espanha, perdura o seu lado manso, mas as marés garantem a agitação constante e indomável. Impossível fazer barragens por ali, fica descansado. O mar está perto de mais para tal. O que tem bastantes vantagens. Há um brisa que sobe, vinda lá da foz, de Vila Real de Santo António, e muitos pequenos veleiros vêm rio acima e deitam o ferro por ali. Marinheiros, aventureiros, turistas? Acho que tudo isso. Basta ouvir o que vai soando de vozes na pequena vila, encafuada pelos cabeços ali em frente à espanhola San Lucar del Guadiana, que perde aos pontos por ser ainda mais pequena, mas que fica à distância de uma viagem de barqueiro com pouco mais de 100 metros de percurso. Há quem trabalhe do lado de cá e viva na vizinha espanhola, porque as casas são mais baratas lá, dizem.
Atravessar o Alentejo nesta altura do ano para chegar áquele algarve serrano é alimentar o olhar por longo tempo. Verde claro, verde escuro, verde ténue, verde carregado, verde assim, verde assado, muito verde, lilás, amarelo, branco, vermelho. Belo musaico de cores nesta altura. São flores, claro. De vez enquanto a terra lavrada. Castanho claro, escuro, por vezes quase negro, à volta de Beja, onde os barros predominam. E agora as oliveiras, que quase não se viam. Olivais “fast azeite”, regados, de vida curta e intensa, máquinas para tudo. Alguns quilómetros seguidos, mas não daquelas belas árvores que conhecemos nos olivais centenários. A tecnologia produziu umas espécies quase arbustivas, que formam uma fila compacta. Dizem que são dos espanhóis, mas ouvi o Presidente da República, numa visita à feira Ovibeja, dizer que não é nada disso, para acalmar os espíritos e as almas mais atreitas a conflitos com a vizinhança do outro lado da fronteira. A soberania ali na planície não está em causa, quis dizer Cavaco Silva, um algarvio.
Quando se percorre assim aquela parte do país, agora, e depois no Verão, no pino do calor, quando predomina o amarelo ou o dourado, parece que só tem em comum o horizonte, que às vezes parece não ter fim. A paleta de cores é oposta, é banal dizê-lo, mas é seguramente uma terra de contrastes. Sempre foi. Até a natureza se encarrega de o garantir. Basta olhar. E aquela mudança radical, que se dá aí num curto mês, não ocorre em mais nenhuma região. Que bem que sabia ter a tal câmara e ir compondo aqueles quadros, fixando-os. Uma viagem de ida na Primavera e o regresso em Agosto. Só faltava mesmo irem aparecendo algumas pessoas na beira da estrada para entrarem e nos irem contando a história dos lugares como no filme a sério. Dois lados opostos da mesma vida, que ali ainda só sustenta pouco mais do que a alma.
Um infinito abraço.
António Martins Neves

