Bilhete (pró) passado

Reclamante Fernando,

dão-te aí água pela barba essas questões que deviam ser comezinhas aqui, como os direitos dos consumidores. Claro que, apesar de tudo e mais da evolução e desenvolvimentos anunciados, as coisas não correm em Cabo Verde como em Portugal. É um facto. Agora que aqui haja situações igualmente difíceis de aceitar nesse arquipélago é que é quase uma notícia. Pelo menos justifica um veemente protesto. Foi o que fiz e gostaria de te dar a conhecer uma epopeia que protagonizei com a maior empresa de transporte de passageiros de longa distância existente no país, privatizada, daquelas modernas…

Como poderás ver, as diferenças não são assim tão significativas naquelas atitudes a que nós chamamos básicas e definidoras da evolução da civilização. Atenta tu que num dia de Agosto passado um familiar meu precisou fazer uma viagem de expresso, num dia previsível. Fui à internet, encontrei a página da empresa Rede Expressos e lá anunciavam que podia comprar o bilhete na hora, sem sair de casa, através do cartão de crédito. Tentador. Preenchi o formulário e o sistema deu-me um número que havia de servir para no dia do embarque chegar a uma máquina no terminal rodoviário onde introduziria tal código e receberia o título de viagem em segundos. Recebeste tu aí um? Foi como eu! Erro, erro, erro! Tive que comprar outro bilhete para o passageiro não ficar em terra.

Fui à procura do gabinete de reclamações, apoio ao utente, algo que me devolvesse o que pagara a mais e…me pedissem desculpa pelo sistema informático ser incipiente e não funcionar como anunciado. Depois de correrias, lá me indicaram uma porta onde alguém me resolveria o problema. Errado, outra vez. Uma senhora disse-me que não tinha forma de confirmar que eu tinha pago o bilhete com cartão de crédito, portanto não me podia devolver o valor do bilhete. A minha palavra a valer menos do que a dela. Tinha o número do código que o sistema me atribuíra, mas que não, teria que apresentar a reclamação por escrito, apesar de estar ali de viva voz, presente e disposto a resolver o caso na hora (assim como quem cria uma empresa por obra e graça do Governo). Não. Teria que ser por escrito. E para onde? Para o endereço de mail constante na página da empresa.

Cheguei a casa e fiz o que devia. Esperei dias e nada, repeti, o texto para o mail e nada, mais uma vez e outra vez a mudez absoluta. Como sou sócio da Deco há muitos anos, meti a associação de defesa do consumidor no caso. Da empresa de transporte nunca recebi qualquer resposta durante quase seis meses.

A Deco lá me foi dizendo que estava a mediar o caso. E mediou. Há dias entraram-me na conta os 5,3 euros referentes ao bilhete que paguei a mais, chegou-me pelo correio um envelope da Rede Expressos cheio de papéis a ilustrar a forma como o processo fora conduzido, mas jamais um pedido de desculpas. Resumidamente dizia que no dia 24 de Janeiro, mais de cinco meses depois de me terem retido uma quantia que era minha e por uma falha deles, vinham fazer o que deviam ter feito logo a 13 de Agosto: devolver a verba que me retiveram indevidamente. E fazendo gala de nunca se me terem dirigido directamente, a não ser por carta…Para uma empresa que quer ser moderna e vender bilhetes on-line, o que me parecia uma bela e louvável e prática ideia, estamos conversados. Pagaram porque foram pressionados por uma entidade de defesa dos consumidores. É o que posso concluir da ignorância a que remetem as vítimas, como eu, das suas incapacidades e incompetências.

Como vês, Fernando, as diferenças entre aí e aqui não são assim tantas. Baixos índices de produtividade, excesso de burocracia, défice de direitos de quem consome…Oh meu amigo, não tenhas saudades daqui porque, como vês, a “evolução” de que falam aqui é este atraso de vida…Discursos há muitos, seu palerma, diria o outro actor do conhecido filme.

Um protestante abraço.

António Martins Neves