Um aperto de mão único

Repórter Fernando,

acho que não tem nada a ver com a chuva que por aqui cai, devem ser mais as saudades que me fizeram recordar um momento vivido há uns sete anos em Timor. Nunca me tinha acontecido, nem deve voltar a repetir-se, espero eu, porque é uma situação quase indiscritível, apesar de aparentemente sem importância. Um homem a quem me dirigi, disse-me de lágrimas nos olhos: “Deixe-me cumprimentá-lo, que há 25 anos que não aperto a mão a um português”.
Era de manhã e estava em Maubisse, a quem chamam a “Sintra de Timor-Leste”. Fica nas montanhas, tem um clima parecido com o nosso aqui, onde permite que seproduza feijão e batata “da Europa”.
Eu tinha ido visitar, em trabalho, o posto de socorro que os bombeiros portugueses tinham instalado naquela terra montanhosa onde ninguém via um médico há meses. Nem viram com a chegada da equipa, cuja valência mais avançada era a enfermagem. Saí por ali acima, de mãos nos bolsos, postura invulgar naquela latitude de calores. Não se via vivalma.
Deixa-me recordar-te que estamos naquela fase após o referendo em que os timorenses votaram esmagadoramente pela independência, as tropas indonésias e a população que os apoiava deitaram fogo e destruíram tudo o que puderam e haviam fugido por um lado quando as tropas internacionais lideradas pela Austrália entraram pelo outro.
Algumas semanas no “terreno” haviam-me revelado que as melhores fontes, naquelas circunstâncias, eram os padres católicos. E foi quando eu ia á procura do pároco de Maubisse que me apareceu pela frente aquele homem, dos poucos que naquela vila haviam voltado a casa, depois da fuga à fúria das milícias pró-indonésias que tudo matavam e tudo destruíam após a derrota na votação secreta do referendo organizado pela ONU.
Fiquei surpreendido e contente quando o vi, à distância. Pela idade aparente,falaria português. Raros são os  timorenses com menos 35, 30 anos que falam a língua do colonizador mais longo. Ele tinha seguramente mais. “Bom dia. Sabe, por acaso, onde possoencontrar o padre?” O homem arregalou os olhos, esticou a mão e deu-me a resposta que te contei no início desta carta.
Não estava preparado (nem estou) para um cumprimento daqueles, pelo facto de ser português e, pior ainda, por fazer parte de um povo que colonizou aquele. E depois virem-me assim de mão estendida, num sentindo agradecimento, Fernando? Mas era autêntico, isso senti naquela mão firme que apertou a minha longamente.
Trocámos mais umas breves palavras, eu disse-lhe que afinal um português não era nenhuma figura vinda de contos de fadas, que estava ali a trabalhar, a contar o que se estava a passar e mais nada e não representava nada nem ninguém a não ser eu próprio. Deves imaginar o que é falar para quem não quer ouvir o que dizemos…
O homem lá matou a saudade dos portugueses e revelou onde estava o padre, a semear feijão como se tivesse numa horta alentejana, de galochas, enxada e…uma mão cheia de histórias sobre os anos em que resistiu aos indonésios e defendeu, como pode, o seu povo. Mas também recebeu bem o português, mas de forma menos efusiva, porque era mais novo e os valores da igreja católica (eram) são outros.Prometo voltar ao assunto numa futura carta, Fernando. Tu que também por lá andaste, entenderás como tudo é diferente naquela meia-ilha, muito além de ficar do outro lado do Mundo.

Um abraço e um “tahis”.

António Martins Neves