Um americano no Alentejo
1 comentário Publicado por António Martins Neves 20 Março 2007 em Portugal.Compatriota Fernando,
Imagino que rumbas, sons e outros ritmos vão por aí, numa terra de música onde a primeira pessoa que se conhece é de outra pátria, cujo povo tem igualmente a musicalidade a correr-lhe nas veias…Admiro gente como Omar, que decidem mudar de país, desfrutar desse sentimento único de liberdade que é, para quem pode, viver onde nos apetece, quando nos apetece e como nos apetece.
A história do cubano fez-me lembrar logo a sua compatriota e homónima Omara (Portuondo), essa mulher única de uma voz irrepetível e inigualável. Fala-lhe nela e ouvirás. Mas a sua história trouxe-me à memória um episódio que se passou comigo há aí uns 16, 17 anos.
Era na altura um “verde” estagiário do posteriormente extinto jornal Diário Popular e coube-me um dia em agenda ir para às minas de Neves-Corvo, no coração do Alentejo, a sul de Castro Verde, bem no meio da planície de quase nada. Chegara um convite da empresa para visitar a então mais moderna mina de cobre do Mundo, explicou-me o chefe de redacção. E para eu ir pensando, quando regressasse em “aviar” pelo menos duas páginas de jornal com a descida ao “centro da terra”. Disseram-me depois que anadara a 400 metros de profundidade.
Lá fui, com outros jornalistas convidados, de Lisboa, a caminho do Sul. Fomos instalados em hotéis e residenciais antes de termos uma daquelas recepções comuns. Sumos de laranja, vinho do porto, branco e tinto, gin, o costume. Não me lembro se havia os incontornáveis croquetes.
À nossa espera estavam vários responsáveis da empresa. O presidente, muitos directores, técnicos com fartura, um ambiente informal para dar um ar hospitaleiro à coisa enquanto se fazia tempo para o jantar.
Conversa para aqui, conversa para ali, dei comigo a falar com um “maltezão”, como chamam os alentejanos aos homens bem acima da altura média. Uns dois metros, seguramente mais de 100 quilos. Começou por me contar que era geólogo, depois lá foi deixando escapar que era o chefe dos muitos daqueles técnicos que trabalhavam na mina. Teria uns 30 anos, no máximo, mas, afinal era um dos principais responsáveis por aquela exploração mineira. Já vivera e trabalhara em países vários.
Mina daqui, mina dali, mais um salgadinho e outro copinho, tinha-se passado um quarto de hora de conversa quando comecei a notar, de quando em vez, que o meu interlocutor tinha um ligeiro sotaque e invulgar sotaque nalgumas palavras. O português era perfeito, mas aqui e acolá deixava escapar uma sílaba menos bem pronunciada que denunciava berço noutras paragens.
De pé atrás, para não me espalhar, optei por dificultar o vocabulário e ter a certeza que não era eu que estaria a ouvir mal.
Quando me fui reabastecer na mesa das bebidas, aproveitei para o interrogar, no regresso, com um convicto: “Mas não é português?” “Não. Sou americano”. Retive até hoje o momento em que fiquei em silêncio, a mentalizar-me que há mesmo gente com queda para as línguas.
Lá lhe disse que ninguém diria, que levara muitos minutos a reparar nas pequenas nuances que ainda o traíam, mas avancei de peito aberto quando lhe perguntei há quantos anos residia em Portugal. Espalhei-me. “Há menos de um ano”, respondeu-me. Derrotado, insisti: “E em que escola andou?” “Ah, ah, ah!A professora é a minha vizinha do lado, conversamos por cima do muro”.
Boas aulas de crioulo, Fernando.
Um abraço!
António Martins Neves



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