Turistas de cuecas

Viajado Fernando,

calculo que nas tuas andanças nunca te tenham dito isso, mas há quem considere que “um turista de calções é sempre um homem em cuecas”. Numa localidade alentejana, pelo menos, não dizem, mas pensam. E reagem como tal. No fundo, é o chamado choque de culturas que o turismo arrasta consigo.

Passo a explicar-te. Há uns anos tomei conhecimento mais aprofundado sobre a realidade social de Mosaraz, aquela bonita vila alentejana, que fica encavalitada num cerro agora com vista para a barragem de Alqueva.  O meu guia foi, muito provavelmente, o melhor conhecedor dos habitantes da aldeia, onde viveu largos meses para fazer o seu doutoramento: o antropólogo e professor da Universidade de Évora Francisco Martins Ramos. Li a sua tese e depois fui observar no local a realidade que o cientista social tinha interpretado e dissecado.
Lá estava. A calmaria, as ruas quase desertas, um ou outro turista, alguns homens da terra, as casa muito brancas e limpas, as ruas impecavelmente varridas. Dá gosto percorrer e desfrutar, Fernando.
Mas essa atracção tem um lado muito desagradável. Leva a Monsaraz muita gente que ignora completamente o modo de pensar e agir dos seus (poucos) habitantes. Diria mesmo, sem risco de resvalar para o exagero, que se comportam como quando vão a um jardim zoológico.
Estão enganados, mas não sabem, coitados. A cultura dos habitantes de Monsaraz é muito diferente da sua, as regras com que cresceram firmadas em valores muito fortes, nada a vaer com as que (não) vigoram nas cidades. Impera a autenticidade. A honra tem um valor e um peso quase inultrapassável e um homem não deve fazer “figuras”. E uma dessas caricaturas, pensam os mais idosos de Monsaraz, é andar com as pernas à mostra. E depois chamem-lhe calções, calças curtas ou lá o que for, o que não cobre as pernas até aos pés não passa de um par de cuecas, peça que deve andar sempre arredado da vista alheia, obviamente.
Bom, mas associado a este olhar está uma pontinha de desdém, porque quem aparece de calções nem sempre se “sabe dar ao respeito”. Então não queres crer que alguns turistas, se apanham uma janela daquelas singelas casas aberta não se inibem nada em meter a cabeça e espreitar para dentro das casas das pessoas? Aquilo não é a aldeia dos macacos, Fernando, masa eles nem lhes passa isso pela cabeça. Bastava que pensassem se gostariam que fizessem isso na casa deles… Mas como ninguém chega à janela lá do prédio do décimo andar, a questão nunca se levantou…
Agora ali, e ainda por cima na casa de um alentejano, violar assim o espaço reservado e íntimo? Parece chocante, mas é verdade. E os habitantes, que nunca perdem o humor e têm um sentido crítico apuradíssimo, como sabes, desforram-se assim: troçam deles e dizem que andam de cuecas. E lá os vão tolerando…sempre deixam usn dinheiros que criam mais uns empregos na terra. Bebem umas garrafas de água, uns cafés, de vez em quando ficam ao almoço para se deliciar com um bom ensopado de borrego ou umas sopas de peixe do rio nos vários restaurantes entretanto construídos.
Tiram uns retratos, sobem ao castelo e depois regressam à planície, barriga cheia de coisas boas, olhos regalados de paisagem e de vistas largas. O que é muito para turista, mas pouco de realidade . Não se consegue numa curta estadia, nem seria recomendável colocar guias a explicar a riqueza do modo de vida daquela gente simples, como se organizam entre eles e regem os seus conflitos, as suas amizades, os seus problemas. Mas vou contar-te um, que deu o título à tese de doutoramento do meu amigo: “Os donos da sombra”.
Terra de grandes calores, como é vulgar no Alentejo, a sobrevivência torna-se mais fácil se o corpo andar protegido do sol. A melhor forma é mesmo uma boa sombra, como sabes. Acontece que a vila histórica tem uma muralha. De manhã a sombra é de um lado, à tarde do outro e nos momentos de descanso, os mais idosos, que não se perdem com telenovelas nem “reality shows” televisivos, lá vão procurando a sombra.
Tudo natural, não se desse o caso de haver distinções e estar definido quem se senta onde. Os mais velhos ou socialmente mais cotados têm assim uma espécie de lugares cativos lá no paredão sobre os quais nunca ninguém falou nem se sabe como foram determinados. Só que existem e o olhar de um antropólogo verificou-o e confirmou-o cientificamente. Ah, e se por acaso algum habitante estiver sentado no lugar da sombra habitualmente ocupado por outro situado mais a cima na pirâmide social, quando este chega, o primeiro levanta-se sem se trocar uma palavra sobre o assunto, como se nada estivesse a acontecer. E repito, Fernando, nunca a nenhum daqueles homens se ouviu uma sílaba sobre tal comportamento. Não fosse o olhar treinado de um cientista e eu não estava a espantar-te com mais esta carta.
Para remate, que estas linhas já vão longas, retomo como comecei: quando viajares, lembra-te sempre que em Monsaraz acham que um turista de calções  não passa de uma criatura em cuecas.

Um “vestido” abraço!

António Martins Neves


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