Tragédia com nêsperas

Folgado Fernando,

há um ditado que diz: quando estamos em maré de azar, até os cães nos mijam para as pernas. Sem dúvida que às vezes há quem deva ver o mundo a abrir-se-lhe debaixo dos pés sem  que consiga evitar a queda no abismo. E termina mesmo em tragédia, embora até na morte haja quem opte por não perder a dignidade nem desista de pensar nos que cá ficam. Venho hoje contar-te a história de uma família que ficou reduzida a uma criança de fraldas em pouco tempo  e do papel de uma nespereira na trama.
O pai e os três filhos, todos adultos e criados, morreram assim quase de rajada. Por doença ou por acidentes, deixaram a mãe víúva com um
neto pequenino como único descendente direto. Pelos pormenores com que me contaram a tragédia, a senhora começou a dar sinais de dificuldade em enfrentar realidade tão enlutada. Não nos gestos ou na compostura, mas mesmo pelas palavras. Terá confidenciado a uma vizinha que tinha decidido desistir e ir atrás do resto da família. Começou uma espécie de jogo do gato e do rato, entre uma mulher atormentada pela desgraça que lhe entrara pela porta e a outra, sabedora e confessora de uma morte anunciada que se sentia obrigada a travar. Passou a ser uma espécie de guarda da vizinha, a controlar-lhe os passos, a adivinhar-lhe os destinos, a evitar deixá-la sózinha sempre que pudesse. E a tornar isso claro para a outra, que lhe sublinhava a perda de tempo: “Não serve de nada estares a controlar-me! Já sei onde vai ser e tudo…” .
Andavam nisto e seria já para aí final de Primavera, princípio de Verão, quando entra uma nespereira na história. A árvore estava no quintal da viúva e brindara-a com uma bela carga de fruta – uma espécie de compensação natural pela desgraça da casa. A dona começou a mostrar preocupação com o destino da fruta e a insistir com um parente para a ir colher de uma assentada. A pressioná-lo mesmo. A árvore era alta, era preciso uma escada, ela não se via a realizar a colheita como devia ser, que tinha que ser, tinha que ir, era uma pena a fruta estragar-se. Um dia lá conseguiu os seus intentos e o familiar afastado colheu as nêsperas todas. Foi de manhã. À tarde, a vizinha foi encontrar a mulher enforcada na árvore.
Quando chegaram a esta parte da história, deram-lhe o tom de final que eu não esperava. E quis esclarecer porque raio alguém que decide suicidar-se adia a decisão por causa de uns quilos de fruta.”Se não as apanhassem, depois ninguém ia comer as nêsperas”, explicaram-me.

Um frutado abraço.

António Martins Neves