Verdejante Fernando,
andava eu a falar-te de episódios mais ou menos banais de umas férias sem história, apesar de boas, e eis se não quando sou quase massacrado com essa artilharia verde, vindo de onde eu já conheci, por tua causa, pessoas, lugares e modos, mas donde não esperava sinceramente um reviravolta assim. Um rochedo, uma montanha de lava arrefecida há milhares de anos, verdejantes, numas ilhas que não conseguem livrar-se dessa condição de ficarem no enfiamento do maior deserto do mundo.
Andei por aqui a remoer que te tinha que te responder à altura. Com uma faena dessas registada aqui, que trouxesse o país nas nuvens, nós todos esquecidos das desventuras. Procurei, investiguei, ouvi, li e o melhor que encontrei para poder ombrear com essa autêntica provocação foi que aqui perdemos menos verde este ano. Assim mesmo!
Os fogos queimaram menos floresta e mato até agora, somando-se os valores mais baixos de que há memória. Imagina um quadrado com dez quilómetros de lado. Foi o que ardeu aqui até à entrada do Outono e numa altura em que já começa a chover. Foi o tempo, foram os políticos, foram os bombeiros. Terão sido todos juntos. Mas produziram o facto mais importante deste Verão. Ainda bem e só cumpriram a obrigação, os homens. Terão sido competentes como para tal são pagos, outros decidiram como deles não se esperava diferente e a coisa correu bem. Vai haver quem nivele por baixo e vá cobrar isso. Simples como estarmos em ano que antecede eleições para tudo. Um pormenor apenas.
Muito mais significativa e carregada de significado é essa paisagem que enviaste do campo de futebol semeado de milho. Esvaiu-se-me por completo a esperança de te fazer chegar algo semelhante. Só que não me dei por derrotado. E hoje tirei a bicicleta da parede, equipei-me minimamente a rigor e decidi que haverias de ficar a saber o que se passa aqui à beira de Lisboa, a um palmo dos nosso olhos, e que pouca gente conhece e a maioria ignora por nunca lhe terem ensinado a ver a Natureza como ela tem que ser olhada.
Peguei numa maquienta nova que tenho aqui e fiquei a saber que de minha casa à foz do rio Trancão – que separa os concelhos de Lisboa e de Loures, e que desagua no rio Tejo umas centenas de metros acima da Ponte Vasco da Gama – são 8,3 quilómetros. É um tiro de bicicleta, o melhor transporte do mundo, como já te dissera. A maquineta, a dar ares de quase perfeita, ainda me fez saber que levaria 25 minutos a chegar lá. Deixei-a em casa. Ajudou-me, dá-me indicações, mas queda-se por aí. Lá fui e lá estavam os que eu esperava ver. Aos pés de Lisboa, na maré-baixa, a vida fervilha no lodo, pelos vistos menos poluído, que nestas coisas os animais são maisee xigentes e mais difícieis de se adapatarem à porcaria do que nós. Flamingos, sim, aqueles pernaltas cor-de-rosa, patos selvagens, uns bandos daqueles passarinhos pequeninos que parecem uma companhia de tropas especiais voando sempre em formatura e aterrando todos no mesmo local , e as distintas garças-reais. Confesso-te que foi delas que eu fui à procura, para te mostrar como a dignidade pode encarnar numa ave. Que não parece nada de extraordinário, pernas altas, pescoço comprido, corpo mediano, mas que se extravasa quando abre as asas para aqueles curtos voos de pesqueiro em pesqueiro, a prescrutar a vida que anda ali a um palmo de profundidade e que ela colhe com golpes lancinantes e muito bem estudados, com doses de paciência e imobilidade de que só os seres distintos são capazes.
E foi assim, Fernando, dos fogos não mostro nada porque isso seria o verde que sobreviveu quase incólume. Mas deixo-te uma garça-cinzeta. Vi algumas sete, elas que são solitárias e não se misturam nem gostam de grupos. Se calhar um destes dias ainda te posso dizer que o Tejo deixou de ser aquele conhecido esgoto. E nas garças eu acredito.
Um abraço optimista.
António Martins Neves

