Teve que ser, Tito

Liberto Fernando,

faz parte das leis naturais confrontarmo-nos com o passado. E convém que o façamos de frente, assim como os apreciadores de pegas gostam de ver os forcados encaixados entre os cornos dos toiros. Mas nem tudo na vida são cabeçadas, como sabes. E todos os dias somos surpreendidos com inovações, ideias arrojadas, marcas humanas. Resumindo, amigo Fernando, nem tudo é mau.
Apesar da escravatura ainda vergonhosamente recente que testemunhaste , das malvadezas da ditadura, do Salazar, que permitia que pessoas fossem tratadas como gado no “império”, aconteciam e acontecem coisas boas. Aqui, aí. Todos os dias se inova, se produzem novas ideias, talentos…A vida faz o caminho.
Dirás que não imaginas onde quero chegar com este paleio, mas vou abreviar: um destes dias ia em viagem e, numa curva da rádio, apareceu-me uma entrevista com Tito Paris, cabo-verdiano dos vários costados radicado em Portugal há 25 anos.
Acabou de editar um dos seus raros discos, chamado simplesmente “Tito Paris Acústico”, gravado ao vivo já há quase três anos na Aula Magna da Universidade de Lisboa. Recomendo-te, Fernando.
Tito não é um grande conversador. É sim um grande músico. Mas na entrevista que deu à rádio TSF deixou escapar dois pormenores que fazem a diferença entre os que são e os que querem ser. Músicos ou outros artistas.
Contou ele que chegou a Portugal com 18 ou 19 anos contratado para tocar no então famoso grupo “A Voz de Cabo Verde”, liderado por esse outro talento chamado Paulino Vieira. Percurso natural para um filho de músicos, sobrinho de músicos, irmão de músicos. Ao que li depois numa entrevista ao jornal Público, o primeiro acorde que aprendeu na viola foi-lhe ensinado por uma irmã, aos sete ou oito anos. Quando se enganava, levava palmadas. Algum tempo depois já fazia melhor do que a mestra.
O interessante da história que te quero contar começa quando Tito Paris chega a Lisboa. A “carta de chamada” mais as recomendações garantiam-lhe que ia tocar viola-baixo na “Voz de Cabo Verde”. Puro engano. O líder da banda, Paulino Vieira, trocou-lhe as voltas e disse-lhe que o lugar vago era o do baterista. “Tem que ser”, foram as secas palavras que Tito recordou na entrevista. E lá teve um baixista que se fazer às baquetas, mais aos tímbalos e aos pratos e marcar os ritmos sobre os quais os outros músicos desenvolvem as suas “partes”. 
Tinha que ser e…foi. O suplício, contou ele que não se dava com a bateria, durou só até uma digressão pela Holanda. O baixista do grupo decidiu ficar por lá e Tito Paris viu cumprir-se o sonho que o trouxera de Cabo Verde, trocando as baquetas pela viola de quatro cordas que, curiosamente, faz par com a bateria na dança dos ritmos.
Hoje, quando se ouve o músico, como na entrevista, dedilhar de forma genial um instrumento de cordas, percebe-se o quanto não era indiferente para si tocar bateria ou baixo.
Anos depois, conta ele, agora sorridente, ouviu outro “tem que ser” que lhe voltou a marcar a vida e o trouxe à ribalta onde hoje tem lugar assegurado. O “tirano” foi novamente Paulino Vieira, o famoso pianista que costuma acompanhar a diva Cesária Évora. Tito fazia uns coros até que um dia Paulino, em cima do palco, lhe disse, antes de uma música começar: “Vais cantar aquela parte assim e tal…”. Pânico. “Eu nunca cantei, não sei cantar”, terá respondido o baixista. Resposta seca e irrebatível: “Tem que ser”, conta agora Tito Paris. E não se deu mal, pelos vistos. Músico de grande traquejo, a solo, como acompanhante, fez a estrada toda que enriquece qualquer executante, com músicos portugueses, africanos, de onde forem. Discreto também. Mas sempre com Cabo Verde na alma. Canta só em crioulo, Fernando.
Eu, que ouvi bastas vezes o seu trabalho – e acho que até dancei algumas vezes no bar B´Leza ao som dos seus acordes – dei comigo a pensar como alguém chega a ser o que ele é porque um líder lhe diz: “Tem que ser!” E teve que se fazer um grande músico. Amargou na altura, mas hoje dá graças a esses apertos de quem já via mais longe do que ele. E vislumbrava o talento do rapaz, agora cinquentão.

E agora também “tem que ser”, Fernando. Mando-te um abraço fraterno porque acredito que a amizade também fomenta todos os talentos, incluindo o da escrita.

António Martins Neves