Tenda, para que te quero?
Publicado por António Martins Neves 26 Junho 2007 em Portugal.
Veraneante Fernando,
que fique claro que nunca me lembro de ter deixado as botas fora de casa, mas fora da tenda perdi-lhes a conta. Não tens o exclusivo. E se nunca me apareceu um escorpião, já um rato escapou ser esmagado porque conseguiu passar pela única fresta disponível e não ser espalmado por um pé 43. Mas também sucedeu o inverso. As botas resguardadas e eu ao relento. Essa não sei se te aconteceu….
Também gosto bastante de viajar. Sempre que possível, mas é pouco. As contingências da vida o impõem. E nunca viajei muito, mas tive algumas deslocações das que não se esquecem, até por não terem sido abundantes. Foram diferentes, pelo menos. E divertidas.
Quando se andava à boleia, teria eu à volta dos 20 anos, fiz-me à estrada com um amigo a caminho do Algarve, mas do ocidental, costa atlântica . Já nessa altura só razões muito fortes me levavam para aquela região virada a Sul, impraticável no Verão e semi-destruída pela ganância de quem tem dinheiro e pelos maus mandados que elegem para gerir o que já foi uma espécie de jóia da coroa.
O objectivo era mesmo não ir muito além de Odeceixe, essa vila onde apetece estar e volto quando posso. O rio, a praia, a terra, tudo aquilo encanta e sabe bem desfrutar. Mochilas às costas, a primeira paragem da aventura foi no parque de campismo de Vila Nova de Milfontes. Tínhamos pedido uma tenda emprestada, uma canadiana sem duplo tecto, um paninho singelo incapaz de travar mais que um mosquito, ao que julgo comprada num dos antecessores dessas superfícies de venda que por aí abundam. Uma novidade, a tenda. Barata e…fraca. Armava-se com dois únicos tubos de alumínio e esticava-se até que a noite chegasse e a humidade a fechasse quase como um acordeão. Isto contado assim parece ser inconsequente. O mal de tudo foi que, depois da tenda armada, as mochilas arrumadas, os dois campistas ficavam quase por completo fora do abrigo. Solução: deixar as mochilas na rua. Mas ao sol, a roupa e tudo o que tínhamos além do corpo ali ao tempo de noite e de dia? Não! A solução foi radical, mas cumpriu-se a preceito. As mochilas ficaram naquele singelo abrigo e os veraneantes ao relento, separados da humidade da noite pelos saco-cama. Na tenda tudo. Até as botas. Os sonos, que invariavelmente se iniciavam madrugada alta, terminavam manhã cedo com o sol de Verão a elevar o interior daqueles abrigos com fecho a temperaturas inconfessáveis.
E assim continuaram as férias, a acordar com a cabeça cheia da natural humidade nocturna. Paragem seguinte: praia de Odeceixe. Naquela altura estava no auge o campismo selvagem – hoje expressamente proibido. Cada qual armava o que tinha onde queria e podia. Um rio limpo e com muitos peixes, uma estrada de pó, duas barracas no lugar de restaurantes, um monte alentejano ali à mão para fornecer água e fruta e muitos campistas arrumados como podiam, perto do rio, onde a maré deixava secos os escassos haveres de quase todos. Portugueses, alemães, italianos, franceses, holandeses, dinamarqueses…uma babilónia. Novamente a receita repetida: mochilas na tenda e turistas ao relento. As botas de pouco serviam ali, por isso ficavam à sombra. Os pés livres imperavam no tempo quase absoluto. Muito banho, muitas noites vividas, sopa de abóbora para ajudar a prolongar o orçamento. E sabes quando calcei com gosto as botas de novo, Fernando? Quando se me acabou o dinheiro e tive que voltar para casa. Mas quando conclui ter que voltar a estender o polegar revirado à beira da estrada não ia sózinho: acompanhava-me uma infecção intestinal que me encaminhou para o hospital assim que uma alma caridosa parou uma camioneta. Essa parte custou, mas nada de especial. Passou-se. Falta ainda chegar o dia, que espero tardio, em que decida arrumar as botas…
Um abraço naturalista.
António Martins Neves



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