Refastelado Fernando,
quando começou a guerra na Geórgia fui aqui à estante reler o que escrevera sobre aquele país o falecido grande repórter Ryszard Kapuscinski no livro “O Império” quando por lá passou em 1967, em pleno vigor da depois extinta União Soviética. Lembrava-me que o destaque principal era sobre a forma como os georgianos faziam conhaque. Esquecera-me do pormenor de que a célebre aguardente – nascida por aquelas bandas do Cáucaso (é a bebida nacional na vizinha Arménia), onde a humanidade também deu os primeiros passos – é avessa a agitações e violências.
“Tem que ter paz”. O conhaque e a Geórgia, digo eu. Um anão espezinhado por um gigante como a Rússia, embora com pés de barro, parece-me coisa de fracos. É como bater numa criança de quem se tem inveja e a quem se quer dependente. E depois as pessoas, os povos “têm que ter paz” para se desenvolverem, amadurecerem, ganharem personalidade e carisma, distinção. Como o conhaque, essa incomparável bebida quase desconhecida por cá, que deve ser apreciada também com muita serenidade, em goles curtos e raros.
O repórter polaco, sobre quem te escrevi pelo menos uma e outra vez, visitou na altura uma grande nave cheia de barris até ao tecto, onde amadurecia o conhaque, e foi guiado por um homem que trabalhava naquela espécie de adega. Ficou a saber que o conhaque é feito com quatro ingredientes: vinho, sol, madeira de carvalho e tempo. A isto tem que se acrescentar o gosto, como em quase tudo. Nada mais simples, dirás. Engano. A madeira de carvalho e o sol que acumula ao longo de centenas de anos, enquanto a árvore cresce, faz a diferença.
“Enquanto cresce, o carvalho acumula sol. O sol penetra e fica nos nós, como o âmbar se deposita no fundo do mar. É um processo que dura dezenas de anos”, escreve Kapuscinski. Diz ele que nem todos os carvalhos servem para fazer barris onde o conhaque possa envelhecer e tornar-se incomparável. As árvores novas são desaconselhadas. Recomendadas são as que crescem isoladas, em locais secos onde apanhem muito sol. Os raios vão entrando e a madeira vai-os retendo ao longo dos anos. Fica lá tanto sol como mel num favo, compara ele. Árvores atingidas por tiros também não se adequam à função. O tronco fica ferido, a seiva circula deficientemente e a madeira não ganha o sabor desejado. Como na guerra. Quantos carvalhos terão ficado impedidos de dar barris para conhaque nesta guerra que está por terminar. Os camponeses não querem saber disso, obviamente. Querem salvar a vida, fugir, sobreviver, muitos deles para depois voltarem a ter paz, cuidar das vinhas e fazer a aguardente como há dezenas de gerações. Os russos que lhes invadiram a casa gostam é de vodka. Até nisso são diferentes.
Voltemos ao conhaque: a árvore adulta e capaz, com centenas de anos de vida, é deitada abaixo e entregue aos tanoeiros para fazer os barris. O corte da madeira tem que ser perfeito, para que liberte todo o seu aroma e torne a aguardente das uvas no distinto conhaque. “O tanoeiro deve ter o pulso de um construtor de instrumentos de corda”. Os barris também não saem todos bons. Só alguns produzem a bebida que designa como “ouro puro”. O álcool obtido das uvas é depositado lá dentro, 500 ou mil litros, e depois resta esperar. O carvalho, uma árvore que Kapuscinski diz ser preguiçosa, lenta a crescer, vai começar o seu trabalho. Não há mais nada a fazer. A aguardente penetra na madeira e esta vai devolver-lhe tudo o que acumulou ao longo da vida: sol, aroma e calor. “A árvore espreme a sua seiva: trabalha”. Ao contrário do vinho, que se apura com a humidade, o conhaque prefere o ambiente seco. “É muito mais caprichoso”.
Ali fica pelo menos três anos, mas poderá permanecer 100 anos no barril, se a madeira o for alimentando de sol e de paladar. Em 1967 estavam a ser utilizados carvalhos plantados no tempo da Revolução Francesa, com quase 200 anos
Termina assim o nosso camarada polaco: “A idade do conhaque conhece-se pelo sabor. O jovem é duro, rápido, impulsivo. Tem um sabor áspero, arranha. Pelo contrário, o velho entra puro, suave. Só mais tarde começa a irradiar. O conhaque velho contém muito mais calor, muito sol. Sobe à cabeça com polidez, suavemente, sem pressas”.
Um brinde pelos georgianos e um pacífico abraço para ti.
António Martins Neves


