Tasca do sossego

Repartido Fernando,
não quero criar-te água na boca, mas acabei de me confrontar com um prato de espargos com ovos. Um petisco como já tinha saudades. A um alentejano custa passar muito tempo sem momentos assim: um bom pitéu, bela conversa, velhas amizades, um copo. Depois avançou uma farinheira, mas já a senti mais afastada, embora saborosa. Faltou o vinho, a bebida por excelência de quem gosta de conviver em redor de um petisco. O resto são conversas. Imprescindíveis.

Cresci num ambiente em que a socialização fora de casa se fazia na taberna. Ia com o meu avô ao final da tarde participar nos petiscos que aconteciam numa casa enorme, que descobri mais tarde ser uma adega, e que estava ligada por uma porta à verdadeira taberna. Um tabuleiro cheio de copos vazios era colocado debaixo de uma pipa e dali saía o vinho de um final de tarde desejado. Eu ficava a observar, a petiscar o que houvesse no intervalo das correrias, muitas vezes uma peça de fruta, bastantes um singelo marmelo.Voltei àquela taberna acabada para beber café com leite ao princípio da manhã, com bolos de torresmos. Desnoitado.

Uma mulher loira diz num tom seco que há chocos à algarvia. O curto grupo sorri. Ali, na Aldeia do Pico, cozinham-se dos melhores choquinhos que já provei. Não é uma taberna das que te falei e de que tanto gosto, mas os chocos deitam-me por terra. Trazem muitos alhos e um gosto intransmissível. O vinho é sempre a condizer. Gosto daquele lugar incaracterístico, não por ser um exemplo de modernidade sujeita a obras, mas por ser um local onde se come bem e dá prazer estar, pela boa receptividade dos anfitriões.

Páro o carro no parque de estacionamento, do outro lado da estrada, quase em frente à porta do “Justense”. Carne de porco frita, vinho da casa, conversa sem fim, recordações infindáveis. Também há massada de pombo bravo frito. Um lugar de libertação. Quem vai e quem está não conta. Cada qual sabe de si e nenhum do outro. As vozes podem subir de tom ao ritmo dos jarros.

Olho para o balcão de vidro e pareço um nómada do deserto que acabou de ver água. Há uma travessa de cachola grelhada, com muitos coentros, alho e azeite. Pequenas felicidades proporcionadas pelo palato. É dos meus pratos preferidos, como sabes, e produz das melhores sensações gastronómicas a que já tive o prazer de me sujeitar. Vinho tinto para acompanhar. Carrascão, de preferência.

Dado adquirido, não consigo retribuir-te os cafés todos de que me falaste. Mas não me podes acusar de falta de esforço. O grande obstáculo é que só pratico a arte de bem conviver em raros fins-de-semana e não como um gesto natural e diário como tu. Mas também me divirto muito. E cada vez acho mais que este convívio inexistente nas grandes cidades é um fértil incentivo à felicidade. Vou beber um tintinho por ti e falar com os companheiros do momento de algumas histórias de que já disfrutámos.

Um saudoso abraço.
António Martins neves


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