Caro amigo,
escrevo-te ao som da chuva lá fora neste dia do trabalhador. Não uma chuva copiosa, levada a vento, mas daquela que os meus pais chamam de “abençoada”, porque fica toda na terra. Deves saber, é uma espécie de “molha tolos” mas mais forte. Pingos grossos e persistentes que vão caindo devagar e lavando tudo. As árvores, vejo pela janela, parece que estão a gostar.E eu também! Que saudades de uma bela tarde de chuva.
Se fosse em Cabo Verde, seria uma tarde muito melhor. Para dar alguma vida áqueles morros mortos de sede, áquelas acácias que há muito suspiram por uma gota de água. Mas não, meu amigo. Escrevo-te de Lisboa, onde vim passar alguns dias, para ver a família e estar com algumas pessoas que me fazem falta, tentando passar ao lado das eleições na Madeira e de coisas do género.
Quase quatro meses ausente fazem-me, devo dizer-te, dar mais valor a esta cidade que tu percorres todos os dias. Achei-a mais bonita, mais colorida, mais simpática e mais ordenada. É verdade, depois de quatro meses no caos que é a Praia achas Lisboa uma cidade arrumada e moderna. E sobretudo onde tudo funciona, onde te sentes seguro quando vais apanhar um transporte público porque sabes que ele aparece. E as pessoas? Achei-as muito brancas, muito pálidas, e sobretudo muito distantes. Notei que não olhamos uns para os outros nesta cidade. Se calhar porque andamos todos cheios de pressa. Na Praia não, anda-se mais devagar, olhamos uns para os outros, sorrimos mais, discutimos, gritamos se for preciso. Na Praia as pessoas dão umas pelas outras, aqui não, na Praia interagem, aqui não, talvez porque tudo funciona e não precisamos dos outros para nada. Ou então porque esta ordem toda nos foi afastando uns dos outros. Não sei.
Mas tenho, sobretudo, pena. Sinto pena de, quando olhei ontem os campos floridos e verdejantes no Alentejo, não poder levar comigo, no regresso a Cabo Verde, um bocado destas tardes de chuva. Vejo-a a cair na estrada e sumir-se nas valetas e acho um desperdício. Lá faria milagres numa terra seca e gretada, feita de pó e de pedras, onde se arranca em cada ano uma colheita de milho e a custo. Onde lá para Outubro, dizem, caem umas chuvadas mas de tal maneira fortes que a água desce pelos morros, enche as ribeiras e desaparece no mar. Não é abençoada. É como se estivesse a cumprir uma obrigação. Vamos lá resolver isto! E num dia chove pelo ano todo. Há anos em que até morrem pessoas afogadas.
E hoje, dia do trabalhador, depois de ler o que me escreveste sobre o senhor da Madeira, tenho pena que ele não seja obrigado a governar um torrão assim, para ver se lhe acabava a verborreia. Pode ser, caro amigo, que ele se lembre de visitar Cabo Verde lá para Outubro, no dia da chuva.
É que ali as correntes marítimas correm todas para sul. Garanto-te que Brasil ouo Senegal seriam o destino.
Um abraço cheio de esperança.
Fernando Peixeiro


Aqui, hoje chove mansinho, uma chuva friinha de começo de maio, outono mostrando o sabor do inverno,abençoada chuva, bendita chuva….
Pois eu te digo caro Fernando, prefiro o caos (claro que se pudesse botaria ordem) de uma cidade como a Praia – Há muitas cidades aqui no Brasil, que são limpas e organizadas, e a mihna é uma delas, e muitas bagunçadas como Praia, miseráveis, e outra que devem ser piores do que Praia- E na minha herança genética, trago o dom da solidariedade do povo brasileiro, que se pudesse repartia com o nordeste do Brasil, toda água que abunda no sul, e também repartiria, com os povos agricanos, nossa água, com a única condição: Cuidar muito bem dela.Mas continuando prefiro o caos, de nossas cidades, à frieza de outras, prefiro andar e ver sorrisos, e encontrar calor humano e simpatia, do que apenas flores e avenidas impecáveis. Que bom seria, que a minha patria e sua, fossem assim “arrumadinhas” com nosso povo sorridente e simpático, seria mais, um pouco mais que o paraíso, porque felizmente eu vivo num pequeno paraíso, ao sul do Brasil…
Um abraço simpático e um sorriso brasileiro
Maria…