Memorizado Fernando,

o que primeiro retive daquela viagem foram imagens que me assustaram, porque ao anoitecer, se viam focos de incêndio em muitos locais da ilha, e, depois de aterrar, o cheiro a queimado, na capital de Timor-Leste. Estava ali a herança de Suharto, o ditador a quem os americanos deram luz verde para invadir a antiga colónia portuguesa. Destruição, destruição, terror, terror e milhares de pessoas levadas como gado para onde os seus herdeiros quiseram e outras mortas com a mesma atitude logo ali, sem mais.

Como sabes, morreu mais um ditador sem castigo. Só lá em Timor terão sucumbido às suas tropas mais de 200 mil civis e nunca lhe aconteceu nada. Que estava doente, incapacitado… indefeso. Assim uma espécie de pobre coitado, um velhinho de quem qualquer criatura com uns resíduos de sentimentos humanos consegue perdoar uma pisadela, um empurrão para evitar ele próprio cair.

Mas não: tratou da sua ascensão de uma forma meteórica. Começou por baixo, nascido numa casa de bambú na ilha de Java, donde emana todo o poder político na grande Indonésia, com as suas 17 mil ilhas e 200 milhões de habitantes. O maior país muçulmano do mundo, mas onde, curiosamente, são chineses católicos que acumulam as maiores riquezas e dominam os dois sistemas vitais que são a Saúde e a Educação. E foi com chineses que Suharto começou a sua ascensão corrupta, com negócios enquanto militar, como faziam os outros magalas.

Acabou sendo o “eleito” para suceder a Sukarno, o “pai” da Indonésia independente, que se livrara da colonização holandesa.

Se queres ver um pobre soberbo, dá-lhe a chave de um palheiro. Nascido entre os mais descamisados, o ditador depressa esqueceu isso quando tomou o gosto ao poder e, obviamente com o apoio dos norte-americanos, que não queriam ter uma Jacarta liderada pelo segundo maior Partido Comunista do Mundo – a seguir ao chinês – encarregaram aquele homem de “harmonizar” toda uma mescla de povos e religiões que se misturavam e conviviam no gigantesco país. Claro que os javaneses como Suharto ganharam estatuto próprio e ascenderam aos lugares mais importantes.

Na limpeza aparece metade de uma ilha chamada Timor-Leste, por sinal mais desenvolvida do que a outra metade administrada até anos antes pela Holanda, que tinha, entre outras características singulares e apetecíveis, algo de tão valioso como de assustador para as potências da região, onde se incluía também a Austrália: o aeroporto de Baucau uma das melhores pistas daquela região da Ásia e uma plataforma fundamental para quem quisesse ter poder na região. Liderada por um grupo de gente nova embebida dos ideiais revolucionários da altura, que iam desde maoistas a polpotistas que defendiam o fim da moeda e achavam o regime cambodjano, que matou milhões de pessoas, do mais “puro” que se produzira em regimes à face da terra, a meia-ilha tornou-se num objectivo a abater e bastou meio caminho para obter dos americanos o aceno de cabeça conducente à invasão de Timor-Leste. O resto é história conhecida e nunca julgada. Fala-se muito em condescender e pouco em justiça, até entre os dirigentes timorenses que lutaram por ter um país independente. Suharto e seus homens de mão, donde se destacam essa figura que representou a diplomacia no seu melhor e que vive uma reforma dourada, chamada Ali Alatas, o general Wiranto, o activo comandante que dirigiu à distância as maiores matanças da história recente dos timorenses e outras no terreno…

O velho morreu com 86 anos e sem ser julgado pelo que fez. Sentou centenas de timorenses em tribunais fantoches, mandou matar milhares, mulheres e crianças pelo meio, só pelo facto de existirem, e foi-se embora sem que ninguém tivesse avaliado o seu comportamento ou o tivesse chamado à razão. Deve ter morrido a rir-se e a pensar que direitos humanos e democracia são conceito dos fracos que não conseguem obter o poder por outros meios mais eficazes. E o pior é que deixou lá muitos seguidores. Na Indonésia e em Timor…Os timorenses que nunca esqueçam, porque os apoiantes de Suharto – e são muitos – estão ali do outro lado da fronteira, à espera…Podem pensar nos aliados, mas a corda parte sempre pelo lado dos mais fracos e a história da democracia só vinga quando não há grandes negócios e interesses económicos por trás. Eles que se convençam de uma vez por todas: Suharto morreu, mas deixou muitos seguidores, na corrupção e na política imperial que desenvolveu. Espero que o tempo não me venha a dar razão…

Um céptico abraço.

António Martins Neves