Solidão? Nã!! É só ir à “Ana”…
Publicado por António Martins Neves 30 Agosto 2007 em Portugal.
Folgazão Fernando,
sei que não tens tatuado no braço “Amor de Mãe” nem te conheço adepto dos novos métodos para homens e mulheres sós travarem relacionamento. Mas quero dar-te a conhecer o último grito na matéria, curiosamente vindo das entranhas do Portugal profundo, pois o método deverá dar muito que falar – e amar, espera-se. Um euro e um telemóvel e está feito: “Para o Natal vem aí outra”.A história saiu um destes dias no jornal Público. O repórter fez-se à estrada para nos contar o país para além do Algarve e das praias, o outro Portugal em Agosto e deu de caras com um novo “hit”, o último grito a que recorrem os corações solitários e mais empedernidos para matarem a solidão: compra-se a revista Ana e já está. Pelo menos é o que conta o protagonista da história, polvilhada com muita miséria humana, uma receita daquelas que ninguém vai copiar mas que são “cozinhadas” todos os dias, a pontapé. Tribunal para cá, tribunal para lá, queixas de abuso sexual, maus-tratos, crianças a sofrerem, uma família desfeita. Solução? A revista Ana, dispara o homem sem ponta de ressentimento. Vai aos anúncios, telefona e já está, assim quase como quem estala os dedos. E não penses que está um grande segredo por trás desta “técnica”. Afinal, garante o nosso homem, “há muitas mulheres que precisam de homem”. Pelos vistos…
Foi assim quando a sua família se desintegrou e o entrevistado se viu na situação inversa: um homem a precisar de mulher. Agarrou-se à célebre revista, telefonou e logo apareceu uma mulher. A reportagem não conta pormenores, mas não deve ser difícil imaginar a “companheira” carregada de sacos com roupa, um filho de cada lado, a bater à porta e a dizer: “Bom dia, eu sou o teu novo amor”.
Bom, a verdade é que as coisas nem sempre correm pelo melhor, o Tribunal anda de olho no que passa lá em casa e a mulher temeu vir a apanhar por tabela e, antes que fosse tarde de mais, fez o caminho de regresso. Mas lá está sempre a revista para ajudar quem precisa.
“Já tenho outra companheira. Vem para o Natal”, diz o tal homem que escreveu para a eternidade no braço que tem “Amor de Mãe”. Assim como se encomenda e espera por um peru, um leitão, um bacalhau para a consoada, há quem se disponha a esperar por uma “companheira” estes meses todos. E ela também, imagina-se, mesmo a “precisar muito de homem”, a fazer fé no experiente leitor dos anúncios da Ana.
Quando chovem comunicados e press-release nas redacções a anunciar as mais modernas técnicas de “dating”, uma americanada pelo qual se paga muito bem para tentar, relatam as abundantes reportagens, desencantar um amor para vida e ali, numa aldeia igual a tantas outras de Portugal, onde só vai parar quem se perde ou as mulheres que anunciam a solidão na Ana, um homem com uma vida triste conta a um repórter sortudo como tudo, afinal, é bem simples. Um telefonema e…algum tempo de espera, pelos vistos. Há prazos para tudo, Fernando. E o coração e o corpo também têm que saber esperar. E no Natal uma casa cheia costuma ser sinal de alegria. Ao menos uma vez no ano!
Um abraço bem a tempo.
António Martins Neves



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