Nostálgico Fernando,
quem diria a importância que os coentros podem ter na vida um simples mortal. Provavelmente, o síndroma de abstinência da planta aromática deve atacar quase só alentejanos, mas quando dá parece que é forte, pelo que me contas. As culturas andam de mão dada: a dos coentros, e outra, de quem cresceu a conviver quase diariamente com as pequenas plantas verdes aromáticas, que aqui, na metade Sul do país, se dão em qualquer vaso de flores.
Acredito que um simples molho daquelas ervas não faz a primavera de um emigrante em África. É necessária ainda uma cabeça de alhos, um fio de azeite e bom pão, claro está. Se bem percebi, é disto que te queixas. Mandava-te uma encomenda, mas o risco dos coentros chegarem aí mais prontos a fumar do que abrilhantar aquele caldo seria enorme e o pão teria seguramente que ir parar ao papo de alguma galinha, depois de convenientemente demolhado para anular a dureza empedrnida. Restariam mesmo os alhos, que presumo encontrares por aí com facilidade, mas que só por si não saciam apetites saudosos de ninguém.
Curioso nesta história de tentar reduzir distâncias pelo palato, é que muitas vezes acabamos por sentir saudades de casa mesmo sem sair da aldeia. Eu, por exemplo, já dei muitas vezes comigo a imaginar um fogareiro aceso, uma grelha quente onde são depositadas umas fatias de fígado de porco. Um virada e ei-las na travessa, onde são cortadas em pedaços pequenos e posteriormente regadas com o tal azeite fino, umas pedras de sal, os inevitáveis coentros picados mais os seus inseparáveis alhos, igualmente cortados bem finos. Simples como tu sabes, é um manjar de deuses. E há quanto tempo, que eu amarrado aqui à terra não meto dente em tal pitéu? Nem me lembro já. E porquê? interrogarás tu de sobrancelha franzida. Pela razão simples que não encontro o petisco confeccionado em nenhum lugar e não tenho condições domésticas para o realizar com a dignidade indispensável. A verdade é que cachola para mim vai bem com tudo. Umas sopas com o dito fígado mais o bofe também me deliciam ao ponto de trocar o prato por muito poucos, e até se o acompanhamento for massa, confronto-me igualmente com a incapacidade de lhe resistir. E insistirás tu: mas porque raio é a critura não vai ao talho comprar os mal fadados fígados e cozinha depois em casa, para saciar o paladar e o espírito? Porque não me sabe bem em qualquer lugar nem em todas as circunstâncias. Se tudo ocorrer depois da morte recente de um porco e a confecção for desenvolvida a campo e depois servida numa mesa corrida de amigos, quero lá saber de trufas reais, caviares ou lagostas suadas. A cachola é que me leva mesmo pela certa.
Sei que és comedido e bastaria um ramo de coentros para matar as saudades que te submergem o paladar. Pedir o resto seria, vindo daí, quase como exigir o mundo. Manietado que estou para acudir nesta hora de necessidade, resta oferecer-me para arriscar enviar-te um molho de coentros em correio internacional e ter esperança que cheguem aí com vestígios do verde natural. Caso aches mesmo que é impraticável, pouco mais me ocorre do que ir esperar-te ao aeroporto na tua próxima vinda, de ramo de coentros na mão. Ninguém vai perceber, mas anteciparás para aí numa boa meia-hora o fim dessa carência que te atormenta. Com a garantia que te sentarás à mesa logo a seguir frente a uma bela açorda de alho, com ovo e tudo.
Um gastronómico abraço.
António Martins Neves

