Só um caldinho

Regressado Fernando (à Praia),
saiu-te bem esse retrato intimista e menos vulgar em ti (distracção minha…?) sobre o teu regresso a essa terra que já é um bocadinho tua. É bom nós sabermos viver onde estamos sem abdicar das regras que são básicas em qualquer parte do mundo. O que muda depois são aspectos mais ou menos decorativos, culturais seguramente, as cores…e por falar em cores, na manhã depois de ler a tua carta, levei mais do que os habituais cinco segundos necessários para o espelho me confirmar que estou vivo quando acordo. E reparei que a minha cara mudou de cor. O negro da barba está a ficar branco a uma velocidade considerável. Bom, isso tem a importância que tem…Mas trouxe-me à memória alguns momentos em que lidar com os pelos da barba ou da cabeça foram realmente diferentes do que hoje me sucede, e à maioria das pessoas, presumo.
“Estás lá hoje”, costumava perguntar eu ao barbeiro que me aparava a farta cabeleira de então mas muito poucas vezes escanhoou a cara por sempre ter lidado mal com lâminas afiadas a deslizarem-me pela garganta.
“Às [tantas] estou lá”, dizia ele quase sempre.
Tocava à porta, que era aberta muitas vezes pelo pai ou pela mãe, recebia as boas vindas de uma cadela simpática, que se comportava como nós quando revemos um grande amigo passados 15 anos. Depois aparecia o Luís S.. “Vamos lá”?
E íamos. Tinha uma boa cadeira de barbeiro herdada do pai, numa salinha só com uma porta, sempre aberta, virada para um quintal com limoeiros e laranjeiras e o que lá semeassem.
Deixa-me dizer-te que tudo isto acontecia quando eu já não era criança e cortava o cabelo onde me apetecia. O rapaz, mais velho do que eu, tinha queda e era preferível do que estar à espera nas comuns barbearias, quase sempre a abarrotar. Ah, e o preço era o mesmo, se não me falha a memória que resta.
Ele levava tempo e tempo, conversava e conversava, a tesoura sempre a tinir por cima do cocuruto, apara daqui, compõe dali, a coisa saía mais ou menos perfeita.
A esta hora, tu que estás a tentar matar as saudades que te restam de cá, já perguntas a bater o pé, o que é que isto te interessa… Fui sempre um sortudo nas mãos de Luís S.. Com direito a cheirinho no fim, atenção.
Porque cortar o cabelo pode ser um acto muito pouco rotineiro, e é isso que me faz escrever-te hoje sobre esse meu barbeiro de antigamente (não, não estamos a ficar velhos, Fernando, só muito vividos!).
Numa bela das muitas noites preenchidíssimas de sexta-feira a festa era inevitavelmente numa cervejaria. Os mesmos muitos clientes, os poucos empregados, as muitas garrafas, o inevitável esquecimento do relógio recordado pelo carro da polícia a passar a dez à hora na rua dois das duas da manhã.
Luís S. nunca teve uma barbearia aberta, acho que nunca passou um recibo, aquilo era dinheiro que nunca soube o que era impostos, mas clientes não faltavam. “Estás lá amanhã?”, perguntaram-lhe naquela noite. “Tou, tou”. Um noctívago de sexta a preparar-se para aparar as melenas ao sábado de manhã. Pode ser que sim…Mas fervilhavam aquelas noites, de ideias, algumas boas, a maioria sem pés nem cabeça, outras divertidas. Daquela vez surgiu o impensável:”E se tratássemos já disso aqui?”, sugeriu o cliente. Alto, que se fez luz na cabeça do barbeiro aprumado mas semi-clandestino. “Era capaz de não ser má ideia…Mas como?”
O cliente tira do bolso um porta-chaves que rapidamente se transforma numa tesoura. As palavras diminuíram. De um salto, Luís S. correu ao lavatório da casa de banho, retirou da parede o espelho pendurado num camarão por uma corrente, voltou no outro pé, coloca o vidro grande nas mãos do “cliente” e vamos isto. Tchac, tchac, tchac, a cervejaria cheia, um cliente sentado em pose e outro de pé à sua volta a desbastar-lhe a cabeleira. Num abrir fechar de olhos já se avolumavam os tufos de cabelo no chão provocados por uma tesoura que nunca teria sonhado cortar o que fosse na vida.
Eis senão quando o dono da cervejaria repara no retrato! A coisa não aqueceu, mas o corte acabou ali logo:”Meus amigos, nesta casa só quem faz negócio nesta casa sou eu”: O corte sempre ficou para o dia seguinte… Não serviu de nada a argumentação dos protagonistas É só um caldinho, é só um caldinho!….”
Mas não foi a única vez que Luís S. começou a cortar um cabelo de um dia e terminou no seguinte. Uma tarde foi lá tocar à porta um rapaz que ia para a tropa no dia seguinte. Mal por mal, pensaria ele, antes ali a pagar do que lá no quartel de borla. Uma carecada com dignidade e alguma compostura é sempre preferível a colocar a cabeça nas mãos de um magala a comportar-se com um tosquiador de burros em part-time  lá no regimento de cavalaria.
Sim senhora, entra lá, vamos a isto, o rádio da ordem a tocar, a máquina com o pente quatro a cumprir a sua função, primeiro de um lado, depois do outro, como de costume. Careca de um lado, guedelhudo no oposto…normal. Normal? Seria se o rádio não tivesse dado o sinal horário das 19 horas. Estava o corte a meio, precisamente. Zeloso e cumpridor de horários, Luís S. reincidiu: “Muito bem. Está a ficar óptimo. Amanhã de manhã voltas cá para terminarmos…”

Um aparado abraço.

António Martins Neves