Semear o milho uma vez nem aqui é suficiente
fechado Publicado por António Martins Neves 22 Setembro 2007 em Portugal.
Emigrado Fernando,
vi há dias um relatório internacional que falava da imigração para Portugal e deixa-me dizer-te que esse povo com quem vives, e bem, não tem parado de deixar de aumentar na procura de um país alternativo para viver, principalmente se se chamar Portugal. É o único caso em que a origem dos imigrantes para aqui aumentou sempre, nas últimas décadas.
Em 2005, último ano em que eram contabilizados ao dados da organização ocidental para o desenvolvimento económico (OCDE), viviam legalmente em Portugal quase 70 mil cabo-verdianos, mais 22.500 do que cinco anos antes.
Os restantes estrangeiros subiram ou baixaram, entre ucranianos e brasileiros (o maior grupo actualmente), mas a regularidade – na subida – coube sempre a esse arquipélago onde vives.
Talvez por terem que semear o milho várias vezes ao ano para obterem uma maçaroca, pela pobreza que relatas daí, apesar dos índices de crescimento reconhecidos pelas mais cotadas organizações internacionais, com a ONU à cabeça, o certo é que povo dessas ilhas sempre foi de emigrantes. Como nós aqui, aliás. E emigrantes económicos os dois. Eles vêm daí e nós partimos para a Europa e Estados Unidos para fugir à penúria que continua a imperar aqui, onde basta semear o milho uma vez mas isso não chega para que as pessoas tenham uma vida digna. Somos cada vez mais pobres, Fernando, apesar dos lucros dos bancos e de algumas empresas. E todos os políticos falam nisso quando são opositores ao Governo, mas resolvem todos os problemas quando são nomeados para dirigir o país. Passam a erguer uns números estatísticos e pronto. Aí não deve ser muito diferente, presumo.
Mas uma coisa me agrada: venham donde vierem, os emigrantes que procuram o nosso país, todos, são uma mais valia que nunca se soube reconhecer aqui. Falando a mesma língua, tudo se facilita, é certo, mas também quando chegaram as pessoas de Leste, tudo foi um toque para a frente. Porque trouxeram novos hábitos e diferentes modos de estar na vida que nos enriqueceram. A humildade e o carácter, que por aqui tanto escasseiam.
Tudo isto para te dizer, Fernando, que só temos a ganhar quando os povos e as culturas se misturam. Ficamos todos mais ricos e mais sabedores da vida. E tu, já falas crioulo?
Um étnico abraço.
António Martins Neves

