Sem ponta de fascínio…

Espectador Fernando,

já vi telenovelas de que gostei, brasileiras, quase todas. Lembro-me do Bem Amado e outras do género que se lhe seguiram, mas nunca fui um apaixonado do género. Gosto de ir deitando o canto do olho e percebendo o que as televisões vão exibindo naquela matéria de ficção. Tanto assim que gostaria de te falar hoje do programa que os portugueses andam a consumir em doses que parecem pouco recomendáveis e a criar dependências desaconselháveis: Fascínios, uma telenovela exibida pela TVI. Para melhor apreender o que leva as pessoas a optar por aquela “obra” de ficção, tentei colocar-me no lugar delas, um exercício difícil de concretizar, a não ser também ficcionando… O cenário maioritário é o de quem passa o dia a trabalhar, com os inerentes problemas, as chatices do costume, a correria para voltar a casa, preparar o jantar, tratar dos filhos…enfim!

Quando tudo serena, achava eu, que me incluo no grupo – com a diferença de vir muitas vezes escrever-te cartas em vez de ir ver televisão – pensava em algo de formativo ou verdadeiramente relaxante, mas sempre com um espírito positivo. Para desgraças, já bastam as inevitáveis do dia-a-dia a que te poupo, obviamente. Só que fiquei desagradavelmente surpreendido. A telenovela da TVI deprime até as pedras da calçada. Estão ali em doses industriais os piores sentimentos e as menos recomendáveis características de qualquer ser humano: inveja, traição, mesquinhez, ambição desmedida, desonestidade, ignorância, impostura, servidos por uma belo leque de actores. O dinheiro, Fernando, o dinheiro…

E aí desse teu observatório ameno, onde a televisão tem um único canal que passa programas requentados de quem já ninguém se lembra, perguntarás como é que alguém que trabalha o dia inteiro e fica cansado e a precisar recompor-se para mais uma jornada de dureza, se fixa naquela trama impossível de encontrar no mais rebuscado lugar do planeta. Um emaranhado de nós sem ponta à vista, o mal sem se conseguir descortinar onde possa surgir o bem que as pessoas precisam ver reflectido nos seus espelhos. A meta que aparece depois de ultrapassados os obstáculos.

Carregar nas tintas e construir uma drama que “agarre” as pessoas ao ecrã é uma coisa, “Fascínios” outra, e bem pior. Ver aquilo é sofrer, ser confrontado com criaturas que jamais imaginámos pudessem existir, que cometem barbaridades que nunca nos passou pela cabeça. Uma bela sobremesa a que não resistem 1,2 milhões de pessoas, de acordo com a empresa de sondagens Marktest.

Recordo-me que no tempo em que o socialista António Guterres foi primeiro-ministro, um dos elementos do seu governo disse que a governação seria um acto tranquilo enquanto se vendesse tanta “imprensa cor-de-rosa” como sucedia então. E agora até aumentou, seguramente, com mais títulos e a manutenção do interesse voraz para saber quem vive com quem ou quase tudo sobre o traído da semana. E depois não se confunde o interesse público com o interesse do público e toda a gente exibe carteira profissional de jornalista…

Agora, esse ex-governante achará pela certa que tudo está ainda mais fácil para os dirigentes do país. Além do consumo industrial de publicações com revelações “escaldantes” sobre a vida alheia, empanturram-se com uma história televisiva que os deprime até à exaustão e deixa sem tempo para pensar no que afecta realmente as suas vidas. Isto digo eu que não entendo desses fenómenos de massas que os sociólogos sabem explicar. Vê-se um telejornal com mortos a tiro quase todos os dias e depois “relaxa-se” com doses impensáveis de hipocrisia e mentira.

Perante isto, só me lembro daquele homem que carregava pedras para descansar. Não sei se por este conjunto de circunstâncias, ou por outro fenómeno qualquer, toda a gente diz que o país e os portugueses andam deprimidos. Acredito. Mas fico chocado. É que fazem por isso. Porque a televisão tem botões para desligar e outros para mudar de canal. E chorar por gosto também deve cansar…

Um abraço anti-telenovelístico.

António Martins Neves

PS: A música que está aí na barra do lado direito só de sonsegue ouvir se a página for aberta através do navegador Firefox. No Internet Explorer 7 não dá, por razões que ainda não indentifiquei.