Sem barba e pouco cabelo

Lúcido Fernando,
estava eu a cair naquela modorra habitual provocada pelo barulho da tesoura e pela observação do mundo às avessas quando fui chamado à realidade. “Good morning! May i cam’in?”. Esbugalhei os olhos e apontei-os ao canto do espelho onde conseguia ver a porta. O inglês mais atabalhoado que já ouvira quase despoletara uma gargalhada, mas sustive a tempo. Agora era obrigatório ver o autor.

Entrou e cumprimentou os dois barbeiros pelos nomes, sempre na língua estrangeira, balbuciada por uma boca sem um único dente.
Tinha um boné onde escondia o crâneo até às sobrancelhas e o queixo quase encostado ao nariz, não fossem os lábios salientes. Mudou o registo e passou à língua materna. Pronunciou-se sobre o a aspecto dos presentes que conhecia – “bem escanhoadinho, hã?!” e passou a mão pela cara do mestre da tesoura – e chegou ao espelho enorme para dissertar sobre o seu. “Agora temos barbeiro duas vezes por semana. Terças e quintas. Deviam ser era três” e afagou o queixo como que a demonstrar que estava liso e rapado. “Fiz bem cortar o bigode, não fiz? Dava-me um ar um bocado ordinário…” Ninguém conteve o sorriso. Contou que tinha ido comprar, interrogou-se porque razão a televisão estava sintonizada na RTPN e não na SIC-Notícias – “A SIC é que é boa” – deu mais meia-volta e perguntou as horas: onze e meia. “Bom, vou andando que o almoço é ao meio-dia e meia”. Abriu a porta, voltou-se para trás e voltou à carga: “Goodbye!”. Saiu e fiquei a vê-lo pelo espelho a atravessar a passadeira e a desaparecer pelo portão do hospital.

Um humorado abraço.

António Martins Neves



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