Caro amigo

Sou também dos que acreditam que a pequena Maddie está viva. Não tenho qualquer informação privilegiada nem me preocupei sequer em seguir o caso com muita atenção, mas a ideia de que alguém possa ter morto uma miúda assim pequenina é muito mais absurda do que a de que a possam ter raptado, sei lá com que objectivo. Não tenho é dúvidas de que vai aumentar os medos da sociedade e de que cada vez menos verás crianças a brincar, saudavelmente, na rua.
Eu, como por certo tu e todas as pessoas da nossa geração, cresci na rua. Podíamos sair de casa manhã cedo e só regressar para almoçar que era uma bênção para os nossos pais, já que eram umas boas horas que os deixávamos descansados. Saltávamos muros, jogávamos à bola em qualquer larguinho, roubávamos ameixas na mercearia da esquina, andávamos à porrada por causa de um berlinde e quando chegava a hora de jantar as nossas mães às vezes tinham de vir buscar-nos. Arreliadas às vezes, pela cara esfolada, pelas calças outra vez rasgadas nos joelhos, por aquela sujidade toda entranhada na pele. Arreliadas mas não preocupadas.
Depois vieram as consolas, os desenhos animados manhãs inteiras, e fomos nós que deixámos a rua, pouco a pouco, não porque ela se tornara perigosa mas porque tínhamos em casa maneira de nos entretermos. E também ficávamos quietinhos, com a vantagem de rasgarmos menos calças.
Hoje não. Se uma criança dá uma corrida num supermercado já os pais vão aflitos antes que ela dê a volta no corredor dos acessórios automóvel e a percam um segundo de vista, o tal segundo bastante para desaparecer para sempre. Nenhuma criança vai à padaria que fica no rés-do-chão, nenhuma criança vai a casa do amigo que mora no prédio ao lado. Nenhuma criança, agora, fica sequer cinco minutos em casa, sozinha.
Eu entendo isto. Tantos casos de desaparecimentos misteriosos e insolúveis, num segundinho, num momento de distracção, como se atrás de cada criança estivesse sempre um malfeitor, só à espera de que o pai dê um espirro e feche os olhos, ou que se baixe para atar um sapato.
E é por isso que te digo que os nossos pais foram mais felizes, como me parece que são os pais de Cabo Verde, onde este tipo de preocupação com os filhos ainda não chegou à loucura que se vive na Europa. Não julgues que não se instalou lá também, onde naturalmente estas notícias chegam com a mesma rapidez, mas lá ainda é possível ver crianças a brincar na rua e lá os “putos” vão sozinhos para a escola.
Falei-te há tempos de uma ida a Porto Mosquito, na parte ocidental da ilha de Santiago, e de, na volta, quatro miúdos me terem pedido boleia para a Praia, com o objectivo único de andarem um bocadinho de carro. Caso tivesse acedido teriam entrado com a maior das felicidades num carro onde já estavam dois adultos desconhecidos. Os pais dessas crianças não saberiam que eles andavam por ali? À beira da estrada?
Na mesma altura, creio que uns dias antes, ia mostrar a praia de S. Francisco a uma amiga. Tinha lá ido uma única vez e baralhei-me no caminho a seguir. Nada mais simples: foi um grupo de putos, todos com menos de 8 anos, que a troco de uma boleia até ao areal nos ensinou o caminho. Dois adultos, um carro, e os pais provavelmente a trabalhar, descansadinhos da vida. E esse grupo ficou à coca, a ver quando nos vínhamos embora, para nos “cravarem” uma boleia até casa. Sem medos.
Em Cabo Verde tudo isto ainda é normal. Também porque é diferente viver numa ilha. Em Portugal rapta-se uma criança agora e uma hora depois já estás em Espanha. Sair de uma ilha com ela já não é assim tão fácil. Mas a verdade é que para se fazer mal a um ser assim tão indefeso não é preciso sequer ir para longe.
Eu acho que os pais cabo-verdianos estão certos. Não se facilita mas também não se priva os filhos da escola da rua, que me parece que lhes é útil, como tenho a certeza foi para nós.
Agora em Portugal se calhar é diferente. E olha, digo-te, se te sentes melhor assim, quando fores com o teu filho na rua e te der vontade de espirrar agarra-o primeiro.

Um cauteloso abraço
Fernando Peixeiro


1 Response to “Se te der vontade de espirrar agarra-o primeiro”

  1. 1 ricardo

    Pois é, ó Peixeiro… pensar que há gente capaz de matar uma menina pequenina, de olhos azuis, linda, inglesa… é mais fácil que aceitar a realidade… que há gente dessa e muito pior! Que matam não uma mas quantas a sua demência conseguir agarrar com um risco mínimo, porque podem ser doentes mas não sáo parvos.
    Mas há outra coisa que me parece igualmente merecedora de uma reflexão: Será que os teus colegas jornalistas(noutros tempos seriam camaradas, mas isso agora é perigoso!), já se deram conta qaue estão a fazer História? Que esta cena da miúda inglesa pode ficar para a História como a cena do Jack, o Estripador?!! É que, ou muito me engano, ou o desfecho desta cena vai ser um “zero absoluto”( o que dará sempre para escrever uns romances do género) ou a resposta está no “macabro absoluto”, com os mais próximos, sem excluir ninguém, a serem os detentores da solução… Seja como for, para quem se debruçar sobre este caso no futuro, duas coisas estarão na ponta da reflexão: os limites da crueldade humana e o comportamento dos jornalistas.

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