Quando a televisão tem encanto

Michel Giacometti em trabalho de recolhaCircundado Fernando,
entendo que te sintas acanhado aí nesses 70 quilómetros de ilha. Esse será, se me permites, um mal menor. É uma questão psicológica. Se não te lembrares…E  hoje venho contribuir para desanuviares e pensares em coisas boas e belas obras que podem ser feitas, embora acerca de assuntos menos interessantes mas deveras importantes para um país. Quero dizer-te que gostei muito do 1º episódio da séria que a RTP começou a exibir sobre a guerra nas nossas ex-colónias. Só tenho pena que não complete o retrato, discretamente, com uma grande obra que produziu no início dos anos 70 do século passado chamada “Povo que canta”, escrita pelo ímpar Michel Giacometti. Seria serviço público do melhor, a sociedade ia agradecer e os contribuintes entenderiam bem para que deve servir a televisão que todos pagamos, garanto-te.

Falemos da estreia de “A Guerra”, como singelamente lhe chamou o seu autor, o jornalista e ex-director de informação da RTP Joaquim Furtado. Acho que foi um  parto difícil, falava-se no projecto há anos e anos, deve ter custado uma  fortuna, mas o episódio de estreia foi jornalismo do melhor e aí o factor financeiro desvanece-se. O que é bom… Dominaram as imagens arquivads na RTP e recolhidas em 1961, quando começou a guerra em Angola, que depois se estenderia a Moçambique e à Guiné, e os episódios e os factos relevantes narrados por quem os viveu (e sobreviveu). De quase todos os ângulos e perspectivas. Dos que matavam, dos que morriam, dos que fugiam, dos que perseguiam, dos que decidiam…Resulta um retrato crú, mas  realista como se pretende que seja o documentário de uma guerra que afundou  (como todas) um país e ainda hoje marca com o seu ferro impiedoso a nossa sociedade.
Passada em horário nobre, logo após o Telejornal da RTP-1, a série constitui uma forma acessível de contar, de uma forma simples e muito bem documentada, um dos momentos mais trágicos da nossa história colectiva. Parabéns ao Joaquim Furtado pelo “primeiro exemplar” do seu exaustivo trabalho. A continuar assim, estará também a fazer história televisiva.
Mas gostaria, Fernando, de te falar de um outro marco da nossa história passada  em televisão e que eu até via intercalado com o relato da guerra colonial. Foi  uma obra concretizada no início da década de 70 e teve como autores o realizador  da RTP Alfredo Tropa e essa personalidade singular chamada Michel Giacometti, um  etnomusicólogo corso que acabaria por se apaixonar pelo nosso país e decidido  ficar enterrado numa pequena aldeia do Baixo Alentejo.
“Povo que canta” mostra esse apego difícil de explicar (para mim, leigo na matéria) que os portugueses têm pelo canto. De Norte a Sul. E Giacometti percebeu isso mal chegou cá, ainda  quase em lua-de-mel com uma portuguesa que conhecera em Paris, onde estudara na Sorbone. Correu o país de lés-a-lés a registar as vozes do povo, as canções que reproduziam desde sempre, fez uma colectânea de discos e depois conseguiu  concretizar o registo televisivo com Alfredo Tropa, que me mostro uma vez mostrou partes de vários episódios da série. Registei para sempre um, chamado “Mulher da Roda”. Foi  filmado nas margens do Zêzere, o rio cuja água abastece Lisboa, e mostra um  sistema com uma roda enorme accionada pelos pés de uma mulher que assim consegue  tirar lá de baixo, do rio, a água para o marido regar a horta donde obtinham o  sustento familiar. E, enquanto os pés descalços e calejados faziam rodar a  enorme roda de madeira e os seus alcatruzes, ouve-se o que já se perdeu. O cantar da mulher é algo que nunca vou conseguir reproduzir nem contar. Só ouvindo aquele canto esganiçado, solitário, numa aparente tristeza indiscritível. E por isso achava uma opção genial que a televisão pública exibisse outra vez esse tesouro que tem arrumado na prateleira. Era também um  serviço ao país, do mais nobre que me ocorre. Podia até ser no canal 2, mas a  uma hora decente e devidamente promovida. A série, que arrisco ter uns 30 episódios de meia-hora, toda a preto-e-branco, obviamente, não iria deixar  ninguém indiferente, digo eu. E ganhou prémios internacionais, coisa que nunca deixa de se contabilizar. Vou voltar a falar-te de Giacometti, descansa.
Sei que o cruzamento das duas séries não seria o retrato mais desejável do país,  mas era autêntico e permitia algo muito importante: perceber que, apesar de tudo e felizmente, “aquele” é um país irreconhecível para os da nossa idade, nascidos na  década de 60, e os que vieram depois. Mudámos muito, Fernando. Isso custou-nos a  autenticidade e tornou-nos mais parecidos com os outros. Mas se conhecermos  melhor o passado, vamos entender que temos uma marca inigualável e que nunca  dependeu de um povo genial e criador o atraso que teima em atormentar-nos.

Um progressista abraço.

António Martins Neves