Saber viver

Confuso Fernando,
quando te disse que era mais gravoso o tecto de uma escola cair em Portugal do que a falta de chuva em Cabo Verde referia-me, obviamente, à intervenção humana. Aqui caem rebocos de tectos de escola, cansados de ameaçar, por negligência dos decisores. Aí não chove porque… a natureza não quer, para abreviarmos a questão. Mal comparado, é como matar aí as tartarugas sem entender a importância que elas têm para a sobrevivência da raça humana, ou aqui os caçadores atirarem sobre tudo o que mexe como se qualquer animal fosse um inimigo a abater em vez de um preciosos auxiliar para continuarmos vivos.
Com tudo isto, colocas-me perante uma questão fascinante e muitas vezes simples: como o homem consegue usar a natureza há milahres de anos em seu proveito sem a destruir.
Não é difícil, só dá algum trabalho, a que nós costumamos ser avessos porque queremos logo tudo no prato.
Lembro-me de um exemplo recente que vi num documentário gravado na Costa Oriental de África, julgo que no Quénia. Uma tradição ancestral de uma tribo de pescadores que usa rémoras para pescar. São uma espécie de peixe que tem a barbatana dorsal transformada numa potente ventosa que se agarra a raias, tubarões e outras espécies bem maiores, vivendo das restos da alimentação daqueles “sócios”.
Ora aqueles homens inteligentes, como os seus antepassados, descobriram que em vez de andar com anzóis ou outras artes mais elaboradas, podiam usar uma rémora para pescar os peixes que necessitam para alimentar a família. Passam um fio na cauda da rémora, que não parece nada afectada por isso, e andam com ela num balde, a bordo da embarcação. Depois, atam um fio enorme ao que está fixo no fim da coluna do peixe e largam-no no mar. É esperar que ele encontre um dos outros peixes de que precisa para sobreviver, se alape a ele, e depois içá-lo para bordo, nalguns casos depois de longas lutas por se tratar de espécies de grandes dimensões. Mal conseguem o que precisam, vão logo para casa e não fazem questão de carregar o tradicional veleiro. Quando acabarem aquela pescaria, tentam outra. Chama-se a isso gestão de recursos naturais e eles praticam-na há muitas centenas de anos.
Ainda em África, na Tunísia, uma técnica ancestral leva os camponeses a caçar todos os anos algumas centenas, julgo, de codornizes, que descansam naquele país e se alimentam antes de se atreverem, com as suas curtas asas, a atravessar o Mar Mediterrâneo numa migração para Europa. A técnica é sofisticadíssima. Antes da migração das codornizes chega uma espécie de milhafre pequeno, que vem esperá-las para as caçar. Os antepassados dos actuais tunisinos descobriram que estas aves podem ser capturadas e usadas para apanhar as codornizes, uma versão menos exuberante dos asiáticos que caçam com falcões. Mas só usam os pequenos milhafres enquanto as codornizes não partem. Depois, soltam-nos e deixam-nos ir à vida deles. Até ao ano seguinte.
Como vês, Fernando, temos muito pouco para inventar. Se abrirmos bem os olhos, quase tudo é praticado. É só uma questão de adaptar os meios e, principalmente, a inteligência.  Porque evitar que caiam tectos de escola é simples, fácil e barato, na maioria das vezes. Agora semear milho nas montanhas de Cabo Verde, apanhar raias no Quénia ou codornizes na Tunísia é que tem que se lhe diga. Muito saber, muita tradição e…muita vontade de viver e deixar o suficiente para os que vêm atrás também consigam ter a sua parte.

Um abraço ecologista.

António Martins Neves